CÁTIA CARDOSO
 
O Tojal que venceu o Leya
 
Afonso Reis Cabral apresenta um lugar fruto da sua imaginação e inserido em Arouca
 
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"Isto vai passar-se no Tojal. Ora o Tojal é perto de Arouca e longe de tudo o resto." É assim que começa a obra vencedora do prémio Leya, em 2014, tendo Afonso Reis Cabral sido o mais jovem autor a conquistar o prémio (tinha 24 anos).
O livro acompanha as peripécias de dois irmãos - um que é o narrador, outro que é Miguel, portador de trissomia 21 - que se refugiam num lugar do interior, depois da morte dos pais. É o irmão mais velho um ano (o narrador, do qual não chegamos a saber o nome) que se prontifica, perante as irmãs, a tomar conta do irmão deficiente. "O Meu Irmão" alterna os capítulos entre o presente, no Tojal, e o passado, no Porto.
Este livro, contudo, não é sobre síndrome de Down, não é sobre os obstáculos da doença, é sobre as relações humanas, é sobre até onde o ser humano é capaz de ir, seja saudável ou não. Tudo isto num contexto português do qual muitos fogem, por diferentes motivos, tendo escolhido Arouca para representar esse contexto: o interior do país.
Aquilo que Afonso Reis Cabral nos apresenta é um Tojal fruto da sua imaginação e inserido em Arouca, um concelho que o autor não visitou mas se propôs imaginar. E imaginou que, por exemplo, "Além de Ponte de Telhe, uma ponte da época da D. Maria atravessa o Paivô. Por baixo, o riacho é um olho de gato, de tão transparente. Vem não se sabe de onde pelo meio das falésias e desaparece numa curva sem quase ter existido. Continua em fio até penetrar o Paiva".
Apesar de imaginada, esta obra, da autoria do trineto de Eça de Queirós, descreve, fazendo jus ao prazer da leitura, um interior real cujas caraterísticas vastas vezes martirizam aqueles que resistem.
"Esta zona de Portugal fez-se em xisto", conforme diz o escritor na sua obra. "É duro viver aqui agarrado ao pedaço mais pequeno de terra, a ver se aquilo dá qualquer coisa para comer. E as pessoas envolvem-se, dão tudo de si ao campo através da enxada. Assim como assim, a pedra torna-se fértil e volta e meia retribui qualquer coisa - couve, milho, batata." É fácil identificarmo-nos com esta sina, quanto mais não seja pelos nossos pais ou avós, quanto mais não seja pelo interior que nos é tão familiar, embora vacile na hora de nos prendar com oportunidades de vida, trabalho.
Graças à literatura, conhecemos Lugares que não existem, ou que existem mas ligeiramente diferentes, ou que existem exatamente iguais mas apenas a literatura nos permite refletir sobre eles e, talvez, compreende-los, a eles, Lugares, e às suas gentes.
"O Paiva revela-se depois da última curva, e ao cimo, como uma coroa na cabeça do monte, a aldeia do Tojal", onde "das catorze casas de xisto" apenas três continuam habitadas. Afonso Reis Cabral não escolheu ao acaso o interior para servir de pano de fundo a uma história sobre as relações humanas. É que também as relações humanas podem diferir de região para região. Há caraterísticas intrínsecas nas pessoas do interior que o autor quis explorar, parcial ou totalmente, no seu livro. E, com isso, venceu o prémio Leya.
Em "O Meu Irmão" podemos encontrar um Lugar imaginado que pode não existir, que pode existir mas ligeiramente diferente ou que pode existir exatamente igual mas apenas a obra nos permite refletir sobre ele e, talvez, compreende-lo a ele e às suas gentes.
 
Arouca

Segunda, 17 de Junho de 2019

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