PAULO MILER
 
A 'pedra sagrada' e o projeto europeu
 
OPINIÃO | Os próximos capítulos servirão para refinar a precisão
 
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Na obra "As Rotas da Seda", Peter Frankopan fala-nos do velho mito segundo o qual Zeus libertou duas águias nos extremos do mundo e ordenou-lhes que voassem em direção uma da outra. No sítio em que se encontraram, foi colocada uma pedra sagrada. Frankopan costumava passar horas a olhar para um mapa na parede do seu quarto a tentar calcular onde poderia ser esse ponto. Uma obsessão compreensível, segundo Bruno Maçães. Esta alegoria, reproduzida pelo referido autor no seu livro intitulado "O Despertar da Eurásia", vem ao acaso pelo hiato que se criou entre eleitor e os seus representantes na perspetiva da União Europeia e do seu funcionalismo, sobretudo entre os mais jovens. A premência do debate reveste outros contornos na atualidade não apenas pelo fervilhar típico das eleições europeias, mas também pela sucessão de fenómenos geopolíticos com importância capital no futuro do projeto europeu.
A crise das migrações, o Brexit, a ascensão dos populismos: a tríplice fraturante que tanta tinta tem feito correr, tantas reações virais e anímicas tem despertado na classe política e na plateia dos comuns, que também assistem ao espetáculo com o desalento que vem já sobrecarregado com o peso da descrença.
Mais do que nunca, perduram atualmente perceções algo antagónicas entre o cidadão comum: por um lado, a forte convicção no reforço da união e cooperação, uma das pedras basilares da fundação da União Europeia; por outro, a letargia, visível na abstenção, perante um fosso cada vez mais alargado com Bruxelas, quando um pequeno grupo de burocratas vai insistindo em desempedrar o acesso às suas portas ou, sob o chavão da "mudança", tentam o poder pelo poder.
Macron, no seu manuscrito denominado "Renascimento", aludindo a um dos períodos de maior esplendor intelectual e transformação cultural, veio apelar a uma reinvenção do projeto europeu ou, no mínimo, à sua discussão. O repto é assinalável e interessa discutir. Porém, nesse artigo, Macron, para justificar o seu ímpeto reformista e progressista assente na integração europeia, elenca uma série de medidas que, por sinal, entram em contradição com a mensagem que pretende transmitir: a criação de uma Agência Europeia de Proteção das Democracias, um Banco Europeu do Clima, uma Força Sanitária Europeia, a Supervisão Europeia das Grandes Plataformas - são apenas alguns dos organismos que pretende "criar", soluções essas que mais parecem encaixar num qualquer programa socialista. No fundo, mais barreiras e uma cada vez mais distante relação com o cidadão europeu.
É um tanto ou quanto paradoxal que, ao mesmo tempo que se exulta mais Europa, a coberto de manifestos de supremacia no reduto do eixo franco-alemão, não seja consolidada a Europa que temos, conduzindo a uma décalage que abre o flanco aos que se alimentam do fogacho mediático da discórdia para fazer valer o seu ímpeto propagandista, vulgo populistas.
Por cá, sabemos o que isso é: quando se julgava que a figura do Ministro da Propaganda havia sido já abolida, eis que nos idos de 2019 o Partido Socialista usa o aparelho do Estado como palco para promoção de Pedro Marques como cabeça-de-lista ao Parlamento Europeu, com inaugurações atrás de inaugurações, anúncios de 2030 atrás de anúncios de São Nunca. E para aprimorar a fina ironia, numa altura em que se condena a disseminação de fake news, não haverá certamente ninguém melhor que o seu principal interlocutor, Pedro Marques, para se estudar a origem do problema.
O PSD, por seu turno, tem optado pela via da credibilidade e competência, pela segurança da experiência e dos reconhecidos créditos, ao leme de Paulo Rangel. Enalteça-se ainda a ousadia da aposta na juventude, com a escolha de Lídia Pereira, militante da JSD e presidente do YEPP; a maior organização política de juventude europeia, em segundo lugar na lista de candidatos do PSD ao Parlamento Europeu. Isto sim, contribui para a aproximação ao cidadão comum, ao jovem descrente, mais do que qualquer agência ou anúncio fraudulento.
No entanto, paira ainda a million dollar question, fazendo remissão para a alegoria inicial: onde podemos encontrar a "pedra sagrada", o ponto de equilíbrio da aproximação do eleitorado com a reconfiguração do projeto europeu? Muito tempo exigirá de reflexão, porém, os próximos capítulos servirão para refinar a precisão. O debate inerente às eleições europeias será certamente um deles.
 
Arouca

Terça, 18 de Junho de 2019

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