CÁTIA CARDOSO
 
Viagem ao passado
 
OPINIÃO | Cerca de oito séculos depois, continuamos a pisar a mesma terra
 
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Falarmos de Lugares é falarmos da nossa história e do nosso património em comunhão natural com a nossa identidade. E é já sabido que precisamos de estudar o passado para compreendermos o presente e, por vezes, prevermos aspetos do futuro. Não conseguimos, porém, adivinhar aquilo que a terra e o tempo escondem sem recorrermos a uma das mais fascinantes ciências: a arqueologia.
É graças à arqueologia que verificamos a grandiosidade do monte de São João de Valinhas, localizado em Santa Eulália, também ele um contorno da vila de Arouca.
Subir a Valinhas é, desde logo, respirar natureza. Chegados ao cimo do monte, somos confrontados, quase sem fôlego, com o vale e com o eco da nossa voz. Olhamos em redor e aquilo que mais vemos é literalmente monte, no entanto, há uma mística que nos envolve para dizer que ali há mais do que aquilo que os nossos olhos veem.
Felizmente, a ciência fascinante recupera a memória da terra. E diz-nos que quando a Península Ibérica esteve sob dominação romana (falamos de tempos antes de Cristo, imagine-se!) era no monte de São João de Valinhas que estava instalado o principal povoamento de Arouca. Ter-se-á fixado em Valinhas uma comunidade da época castreja, ou seja, entre os séculos X e VIII antes de Cristo. Os trabalhos arqueológicos desenvolvidos neste território levam ainda a crer que ali tenha existido um castelo roqueiro, conhecido nos documentos contemporâneos como o Castelo de Arouca.
É, na verdade, fácil imaginar a construção. A vista estratégica que Valinhas oferece é indiscutível. Hoje, sem castelo, ainda nos comove tal quadro. Subir a Valinhas é também viajar no tempo. E cremos que é uma das viagens mais longínquas que Arouca nos oferece atualmente.
Os arqueólogos, que têm vindo a estudar Valinhas desde 1988, acreditam que o castelo terá existido na altura de Reconquista Cristã e apontam para os séculos X e XI, sendo que as escavações permitiram encontrar vestígios de diversos objetos, tais como: panelas, alfinetes, taças, moedas, jarros, potes, pregos, fivelas, pontas e lâminas. Estes achados de peças que fariam parte do quotidiano dos nossos antepassados permitem, assim, a verificação da presença humana naquele espaço. O Castelo de Arouca terá estado erguido até finais do século XII, início do século XIII.
São Memórias da Terra com mais de 2000 anos que pertencem a todos e que estão reunidas em livro, felizmente, para satisfazer a curiosidade daqueles que anseiam conhecer o património do concelho.
Cerca de oito séculos depois, continuamos a pisar a mesma terra e a ter uma vista soberba sob o vale de Arouca. Daqui a 800 anos, talvez, se continue a vasculhar a terra em prol de construir a história (talvez os livros não consigam contar tudo e a terra seja mais fidedigna).
O certo é que o monte de São João de Valinhas é um poço fundo de património (cremos acreditar que ainda há por lá peças perdidas para acrescentar ao puzzle). Visitar este espaço é entrar em contacto direto com a natureza e com a história - a nossa, nossa porque somos arouquenses, mas nossa porque somos portugueses e, principalmente, humanos. A história da humanidade será sempre fascinante, conhecê-la nunca será obrigação, mas sim uma vontade incomensurável.
Pisar, hoje, a mesma terra que pessoas que viveram há mais de 2000 anos constitui o direito e o desejo de obter tantas informações quantas possíveis sobre as suas vivências e costumes (falando claramente mais pelo lado humano do que pelo científico).
E, por isso, sempre que quisermos viajar até ao passado é em Valinhas que encontraremos o bilhete de ida. Voltamos quando quisermos.

NOTA: o livro que auxiliou a escrita desta crónica chama-se precisamente "Memórias da Terra", tem coordenação de António Manuel S. P. Silva e é uma edição da Câmara Municipal de Arouca, de 2004.

 
Arouca

Quarta, 27 de Março de 2019

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Joaquim Cunha, autarca de Canelas-Espiunca, em entrevista ao RV

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