TEIXEIRA COELHO
 
Construindo, hoje, o futuro
 
OPINIÃO | Conservadorismos estéreis transmitem a imagem de quem se limita a velhas maneiras de viver a fé
 
  Outras acções...
 Enviar a um amigo
 sugerir site
Mais de meio século após o Vaticano II (1963/65) vivemos ainda modos de entender e de viver a nossa condição de cristãos herdados do concílio de Trento (1545/1563). O Papa Francisco propõe que retiremos da gaveta em que as temos mantido as orientações do Vaticano II. Nesse sentido tem procurado manter-se atento ao mundo, falando de modo que todos o entendamos, "anunciando uma nova etapa evangelizadora marcada pela alegria e indicando caminhos para o percurso da Igreja nos próximos anos" (EG,1).
Vivemos um tempo crucial da história já caracterizado como de "mudança de paradigma", porque tempo de mudanças profundas, complexas e até perturbadoras em muitos aspectos. Cristãos atentos aos "sinais dos tempos", membros de uma sociedade em convulsão, o melhor é vivermos preparando o futuro, que se vai desenhando, deixando-nos de conservadorismos estéreis, que transmitem de nós a imagem de quem se limita a cumprir hábitos e rotinas, derivados de velhas maneiras de entender e viver a fé. O Papa Francisco apela para a urgência em deixarmos hábitos e rotinas que já não são hoje testemunho de presença cristã ao serviço da humanidade, mas manifestações de uma Igreja fechada sobre si mesma mais acorrentada a tradições do que fiel à Tradição.
Lembrava-nos o Papa Paulo VI: "A Igreja deve aprofundar a consciência de si mesma, meditando sobre o seu próprio mistério..." (ES,10). E o Vaticano II deixou dito no Decreto sobre o Ecumenismo que "a Igreja peregrina é chamada por Cristo a uma reforma permanente de que ela está sempre carecida como instituição humana e terrena" (UR,6). É que "há estruturas eclesiais que podem chegar a condicionar um dinamismo evangelizador", alerta o Papa Francisco na exortação programática do seu pontificado (EG,26).
O Espírito não só "falou pelos profetas" - como proclamamos em cada domingo, mais ou menos conscientes do que dizemos - como fala hoje pelos mais diversos canais. Um sopro de renovação vai-se manifestando na igreja, mais visivelmente em comunidades vivas, "nichos de excelência" que, aqui e acolá, contrastam com o adormecimento de muitos.
Está a emergir uma era nova, cujos precisos contornos, sendo obra do Espírito que "sopra onde quer", nos interpela e desinstala do conservadorismo em que vamos vivendo.
O futuro que se anuncia não caminha no sentido de a Igreja manter a sua imagem pública actual ou recuperar o poder que já manteve sobre as consciências. A sua visibilidade actual está amplamente ligada à sua estrutura hierárquica e clerical e, por isso, virá a ter menos visibilidade no futuro. O clero, até devido à diminuição drástica das ‘vocações', não poderá preencher as responsabilidades que a organização centralizada da igreja actualmente lhe reserva em exclusivo. Como consequência, a imagem exterior da Igreja vai deixar de ter a marca clerical. Haverá cada vez menos clérigos e impor-se-á finalmente, nas igrejas locais, comunidades, paróquias, a restituição aos cristãos leigos das suas responsabilidades baptismais. A presença da Igreja na sociedade terá a marca da qualidade do testemunho de cada cristão. Lembra o Papa Francisco: "O Evangelho fala da semente que, uma vez lançada à terra, cresce por si mesma... A Igreja deve aceitar a liberdade incontrolável da Palavra que é eficaz a seu modo e sob formas tão variadas que muitas vezes nos escapam, superando as nossas previsões e quebrando os nossos esquemas" (EG, 22). A dominante laica na face da Igreja não a diferenciará fortemente do resto da sociedade e dar-lhe-á um rosto menos especificamente religioso, menos ritual e cultual. O catolicismo não se apresentará como uma religião entre tantas, nem como um grupo que se reúne apenas com vista à celebração do culto e de cerimónias ritualizadas, mas enquanto comunidades de fé que se propõem antes de tudo a prática do Evangelho tomado como ideal de vida e regra de comportamento.
Pensar no sentido desta evolução, fruto de uma adesão dos cristãos não apenas sociológica, mas livre e pessoal ao Evangelho, só pode encher-nos de esperança.
 
Arouca

Terça, 18 de Junho de 2019

Actual
Temp: 12º
Vento: SSE a 2 km/h
Precip: 0 mm
Muito Nublado
Qua
T 20º
V 5 km/h
Qui
T 19º
V 3 km/h
PUB.
PUB.
 
PUB.
INQUÉRITO
Vai participar no programa "A História de um Convento" que decorre em Arouca de 12 a 21 de Julho?
 
 
A Frase...

"É fundamental organizar o espaço, pensar o palco da vida individual e comunitária"

Sérgio Costa, jovem arquitecto arouquense galardoado com prémio da Universidade do Porto, em entrevista ao RV

EDIÇÃO IMPRESSA

RSS Adicione ao Google Adicione ao NetVibes Adicione ao Yahoo!
PUB.
Desenvolvido por Hugo Valente | Powered By xSitev2p | Design By Coisas da Web | 35 visitantes online