CÁTIA CARDOSO
 
A serra do Gamarão
 
OPINIÃO | Lugar que tem resistido, mais ou menos, à desertificação do interior
 
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Todos os anos, no início, é comum traçarem-se metas e palavras de ordem que determinem formas de se viver mais 365 dias. Fazem-se listas, selecionam termos, e tudo parece recomeçar, ainda que seja somente o ano a novidade.
Ora, estes Olhares (In)Constantes procuram igualmente definir, pelo menos, parte do seu rumo, considerando, desta forma, a existência de uma palavra chave que esteja privilegiadamente presente ao longo das próximas colunas. Não se comprometendo, obviamente, a ignorar eventuais exceções. Até porque 365 dias é muito tempo, tempo suficiente para que se mudem todas as palavras e se troquem todas as metas de uma lista infinita.
Neste contexto, surge a vontade de destacar Lugares. Lugares porque todos pertencemos a algum. Lugares porque há sempre muito a dizer sobre cada um. Lugares porque Arouca está repleta deles, sendo cada um mais especial que outro. Então, olhemos (in)constantemente para os Lugares. A saber mais, no dicionário, lugar é "sítio", "localidade", "espaço".
E para começar pelo princípio, debrucemos estes Olhares no Lugar onde viveu a parte maior da infância a autora desta coluna. Atrás do monte da Senhora da Mó, lá bem no fundo, perdido entre outros montes, está o Lugar do Gamarão de Baixo. E se dele sairmos e atravessarmos a estrada, subindo um pouco, encontraremos também o Lugar do Gamarão de Cima, onde havia a escola com alunos que posteriormente fechou e nos levou, depois de nos ter ensinado a ler e escrever, a concluir fora dela o ensino primário.
Hoje, aliás, continua a discutir-se o futuro de algumas escolas do município. Esta, nas entranhas de um monte, onde aprendemos também a plantar lírios e a colher nozes, foi, na verdade, alvo de pouca discussão, uma vez que foi das primeiras escolas de Arouca a fechar portas. Foi em 2006, aquando o reordenamento da rede escolar impulsionado pelo Ministério da Educação. O edifício, contudo,
não esperou meia dúzia de anos para se ver novamente com vida. Em outubro de 2011, foi instalado na antiga escola primária do Gamarão, o novo centro de formação dos Bombeiros Voluntários de Arouca, ficando assim impedido o abandono daquele equipamento que o então presidente do município, Artur Neves, disse estar "cheio de vida e de história" sem, provavelmente, saber dos lírios ou das nozes (que ali nos fizeram viver tanto e tão bem!). Deste modo, continua a escola a ser escola, a formar e ensinar, pelo menos, isso. Pelo menos, isso.
O Gamarão e a(s) sua(s) serra(s), embora a ausência de destaque atualmente no município, não foram ignorados pela literatura portuguesa, designadamente por escritores como Alberto Pimentel ou Abel Botelho. Na década de 90 do século XIX, ambos mencionaram este Lugar nas suas obras.
Pimentel, no seu romance "A guerrilha de frei Simão", de 1895, escreve que o vale de Arouca se encontrava "fechado por cerros alterosos, de uma melancolia agreste, ao sul a Freita, de este a noroeste, a Mó e o Gamarão".
Por sua vez, Botelho, em 1898, quando publicou o livro de contos "Mulheres da Beira", escolheu a Frecha da Mizarela para dar título a um dos contos, e logo no primeiro parágrafo, considera também o vale de Arouca "quase completamente fechado". "Ao norte a serra do Gamarão, por leste o monte cónico da Mó, e a serra da Freita ao sul, parece erguerem-se aprumadas e vigilantes como esculcas ciosos do riquíssimo tesouro, que na profundida das suas faldas tão galhardamente
ocultam", lê-se. Outros parágrafos à frente, o escritor mostra que ainda não esqueceu aquela serra, quando escreve "(...) volveram os gados a povoar as serras; desde a Freita ao Gamarão".
Ambos olham para o Gamarão como um contorno da vila, e ambos lhe veem apenas a serra. Ora o Gamarão é, efetivamente, essa serra escondida pela da Mó, essa vedação entre o vale de Arouca e as serras que se dispersam, deste lado, pela freguesia de Canelas e Espiunca até à de Alvarenga.
Está, porém, além disso. É um Lugar que tem resistido, mais ou menos, à desertificação do interior, onde a povoação não espantaria estar hoje reduzia a dois ou três habitantes, e, no entanto, todos os dias, ali no fundo de todas as serras e de todos os montes, há crianças que brincam na rua em grupos, provando que ali há vida, e haverá vida, crê-se durante no mínimo mais uma década ou duas, mas talvez bem mais que isso.
Se, ainda assim, o quisermos continuar a ver como a Serra do Gamarão, nada contra. Afinal, é aquilo que somos, no fundo. As serras onde nascemos e que dos seus altos nos viram crescer. Seremos sempre essas serras, por mais cidades que pisemos, e seremos sempre felizes e orgulhosos por sermos (d)essas serras.
 
Arouca

Terça, 23 de Abril de 2019

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