PEDRO VIEIRA
 
Ecos da mudança
 
OPINIÃO | A paz social que as esquerdas anunciaram está longe de ser uma realidade
 
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Quando os franceses saem às ruas para reivindicar os seus direitos, fazem-no de uma forma que não deixa margem de manobra ao poder político, tal é a intensidade e a violência dos seus protestos.
Foi assim no século XVIII, com a Revolução Francesa, simbolizando a luta popular contra o absolutismo e dando origem a uma luta sem tréguas, com incêndios e saques a castelos e propriedades no campo e nas cidades, levando a que muitos nobres de então abandonassem a França.
Foi também assim com o movimento de Maio de 1968, que se tornou um ícone de uma época, exigindo-se a renovação dos valores da sociedade, com a manifestações e greves de trabalhadores de proporções alarmantes. Foi também assim em 1995, com a reforma das pensões; em 2010, quando o governo de então pretendeu alterar a idade de reforma; e atualmente, com as manifestações dos coletes amarelos,
bem conhecidas de todos nós. As reformas em França são travadas nas ruas e convertem-se em verdadeiras revoluções. Esta França que inspirou a Europa e de onde saíram as grandes transformações sociais, políticas e económicas que se refletiram em todo o continente, viu-se agora confrontada, como dizem alguns jornalistas, com uma autêntica Revolução Francesa do século XXI.
Portugal continua a ser este pais de exceção, onde não têm lugar certos comportamentos que acontecem noutros países. É o país dos brandos costumes, onde o bom senso, a paciência, "fazem parte do perfil
psicológico coletivo", como assim o definiu Maria Eugénia Leitão, num artigo de opinião publicado no Jornal Sol, em 2016. Não considero, contudo, que a forma de luta dos franceses seja um exemplo a seguir. Pelo contrário, qualquer reivindicação que implique o uso de violência e a destruição de bens públicos e privados, como se verificou recentemente, é um modo de luta ilegítimo, desproporcional e perturbador da paz social, que felizmente não está na natureza do povo português. Os portugueses exprimem-se com parcimónia, é certo, mas sabem fazê-lo quando a defesa dos interesses individuais ou coletivos assim o exige, nas ruas e nas urnas, através do exercício do direito de manifestação ou de voto. Mas esta paz social que as esquerdas anunciaram está longe de ser uma realidade, e a apelidada tranquilidade e a resiliência dos portugueses deu lugar a reivindicações, discordâncias, greves e manifestações, bem mais acentuadas do que noutros tempos. António Costa enfrentou mais greves em três anos do que Passos em todo o mandato. Isto diz muito da instabilidade que se faz sentir relativamente a este governo, que tem sido suportado pelo PCP e pelo BE. Os impostos cobrados nos combustíveis atingiram valores muito elevados e o Orçamento do Estado para 2019 não previu qualquer alívio neste sentido, carregando ainda mais na taxa do carbono. As promessas relativamente à contagem do tempo de serviço dos professores têm dado muito que falar e os critérios adotados deram lugar a ultrapassagens na carreira dos professores que ingressaram antes de 2011, que são ultrapassados pelos docentes que ingressaram entre 2011 e 2017. Os enfermeiros têm mantido um braço de ferro com o governo, com consequências graves para os utentes do serviço nacional de saúde, pela posição adotada pelo governo. No campo da justiça, as greves dos magistrados têm paralisado os tribunais e originaram o adiamento de centenas de julgamentos.
E no que diz respeito à proteção civil, uma função essencial do Estado, este governo deixou muito a desejar. Vivemos tempos difíceis, com consequências inimagináveis no país, bem conhecidas de todos nós.
Imaginem que tudo isto acontecia com um governo de direita em funções. Abundavam, a todo o momento, os gritos de revolta da esquerda, a exigir responsabilidades ao governo tirano de direita.
A tão aventada paz social que era a bandeira das esquerdas deu lugar à instabilidade, desconfiança e apreensão relativamente ao futuro.
Em ano de eleições (Europeias e Legislativas), as esquerdas (BE e PCP) distanciam-se do governo (PS) e procuram seguir um caminho diferente daquele que até aqui percorreram. O PSD, de Rui Rio, nunca conseguiu afirmar-se na oposição e a luta interna que agora trava com Montenegro promete fragilizar ainda mais o partido, que nunca foi capaz de se afirmar no panorama nacional. O CDS é o único partido que se afirmou como o partido de oposição ao governo. Exige explicações quando tem de as exigir, como é exemplo disso o caso do roubo de Tancos, e apresenta as propostas que melhor servem o interesse nacional. A transparência nos apoios públicos aos bancos foi uma insistência do CDS. Assunção Cristas assume-se, assim, como o rosto da direita e do centro de direita em Portugal, como a verdadeira oposição ao governo e como a única alternativa de direita capaz dar resposta aos verdadeiros desejos e necessidades dos portugueses.
Os portugueses dos brandos costumes, do bom senso, da paciência e da resiliência, irão exprimir-se brevemente, nas urnas, e não tenho dúvida de que o farão em prol da paz social e do bem estar coletivo, pensando no futuro, e no crescimento do país.

(texto publicado na edição impressa do RODA VIVA jornal de 2019.01.17)

 
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Sexta, 20 de Setembro de 2019

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