PEDRO VIEIRA
 
Regresso ao passado?
 
OPINIÃO | Entre nós vejo adeptos dos mesmos métodos de “Jair” para difundir a mensagem política
 
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As sociedades atuais vivem momentos de tensão e de incerteza. A permanente ameaça do terrorismo e as crises económicas e sociais fazem emergir os receios do passado. A ideia de que a história se repete não é nova: os gregos e os romanos acreditavam que a história se repetia e que os regimes políticos evoluíam de democracias para a demagogias e destas para tiranias. A França reuniu no passado fim-de-semana os Chefes de Estado de vários países do Mundo para uma cerimónia que assinalou o centenário do Armistício, que colocou fim à Primeira Guerra Mundial. E aqui temos um bom exemplo de repetição da história e da forma como emergiu um dos mais terríveis e sanguinários ditadores que a história conheceu. Tudo começou devido às dificuldades geradas pela agitação social e económica do pós-guerra, pelo receio de uma possível tomada do poder pelos comunistas, e com a dúvida sobre outras soluções democráticas pluralistas. Isto alimentou o desejo da população num governo com grande autoridade, um tipo de liderança que os alemães encontraram em Adolf Hitler e no seu Partido Nazi. Este eterno retorno dos regimes fascistas que paira sobre as nossas democracias vai-se revelando aqui e acolá. É por isso que, a cada eleição em França, em que Le Pen se apresenta a eleições, surge o temor do regresso do fascismo. No caso do Brasil, a instabilidade social e política gerada na sequência dos escândalos do PT, a crise económica e a enorme criminalidade que se faz sentir no país, alimentaram o desejo na população de um governo com grande autoridade, capaz de por cobro à grave situação em que o país se encontra mergulhado. Jair Bolsonaro representa essa autoridade e personifica a ideia de uma liderança forte que a crise política e económica fez emergir. Entre nós vejo alguns adeptos de Jair Bolsonaro. São os mesmos que olham para Trump como aquele que desafiou os cânones da política e da diplomacia internacional. São adeptos dos mesmos métodos de "Jair" para difundir a mensagem política, fazendo da falsidade o seu modus operandi. Falsos moralistas que do populismo fazem um modo de estar na vida, comportamento que o cidadão esclarecido tende a repudiar. Mas existe uma diferença entre Trump e Bolsonaro e entre estes e aqueles. O primeiro, com os seus meneios ridículos e com os seus tiques despóticos, contrastantes com a figura de grande nível do seu antecessor, não parece representar a figura de um fascista. Já quanto ao segundo, não posso deixar de reconhecer que, de facto, existem sinais que podem indiciar o contrário. Os outros, têm os tiques e a prepotência do Trump e seguem os métodos do Bolsonaro, mas dificilmente terão o reconhecimento social porque tais métodos não são apreciados nas redondezas. Os receios sobre Bolsonaro e sobre as políticas que pode adotar têm ocupado muitas páginas dos jornais. Apesar da política neoliberal que parece estar presente no seu programa económico, o receio da ditadura militar, da qual parece ser adepto é bem real e representa um sinal muito preocupante. A história demonstra, também aqui, que uma coisa e a outra são compatíveis, pelo que os receios são verdadeiramente legítimos.
Alguns pensadores reconhecem que o retorno do fascismo é uma inevitabilidade e que a sociedade tem fantasmas que se negam a morrer. Sobretudo, as dominadas pela incerteza e pelo medo, que são propensas ao surgimento de lideranças como estas. Mas será que a história se repetirá ou as sociedades democráticas atuais não permitirão o renascer do fascismo tal como a história o descreve? Infelizmente não podemos dizer categoricamente que a sociedade atual é capaz de evitar o surgimento de tais lideranças, que parecem reunir cada vez mais adeptos. Cabe-nos difundir uma mensagem de uma sociedade inspirada nos valores democráticos e humanistas, capaz de corresponder aos verdadeiros anseios de todos.

(texto publicado na edição impressa do RODA VIVA jornal de 2018.11.15)

 
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