CÁTIA CARDOSO
 
Da outra margem
 
OPINIÃO | O leitor passa a sentir-se numa das margens do rio Paiva, numa viagem ao passado
 
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Os livros têm um papel imprescindível pela forma como permitem construir a história de épocas, de lugares - sejam aldeias, cidades ou países - ou mesmo de pessoas, dos seus hábitos e vivências.
São produtos fundamentais para o conhecimento, embora nem sempre tenham o merecido reconhecimento.
É, muitas vezes, através de livros que conhecemos determinados locais do mundo, imaginando-os apenas recorrendo à descrição que nos é feita pelas palavras. São, muitas vezes, personagens fictícias que nos aproximam de uma determinada realidade, com os seus costumes e as suas expressões.
Podemos, desta forma, ficar gratos por todos os livros que nos fornecem informações acerca da história do nosso país, e, principalmente - até porque existem em menor quantidade - por todos os livros que nos prestam informações sobre a história das nossas aldeias e das nossas gentes.
Há momentos da história mundial, como a II Guerra, dos quais já todos ouvimos falar, sabemos que Portugal, embora a não participação, sofreu consequências do conflito. E nós, arouquenses mais novos, o que sabemos acerca da vida dos nossos arouquenses mais velhos nesta época?
"Da Outra Margem" é um livro do escritor alvarenguense José Nuno Pereira Pinto que, de forma fidedigna, descreve a época entre 1940 e 1945, em histórias que se desenrolam privilegiando Alvarenga, mas que nos permitem conhecer também tradições e modos de vida das pessoas de Canelas, Espiunca, um pouco de todo o concelho de Arouca e ainda de concelhos vizinhos como Castelo de Paiva ou o
Porto, já que o livro refere por várias vezes longuíssimas viagens de camioneta efetuadas desde Alvarenga até ao Porto.
O leitor passa a sentir-se numa das margens do obviamente rio Paiva, sendo levado numa viagem a um passado próximo, com personagens que inevitavelmente se assemelham a pessoas do dia-a-dia que conhece ou conheceu.
José Nuno Pereira Pinto partilha, nesta obra de excelência, as formas de falar e os termos usados antigamente, bem como palavras mal pronunciadas devido à iliteracia da época que o autor escreve propositadamente de forma errada.
O livro remete ainda para diversas cantilenas, algumas das quais ao lermos é como se ainda ouvíssemos a voz das nossas avós a cantarolar. Bem como para a comunicação através de cartas. As cartas, aliás, aparecem em muitas das 430 páginas, apresentando profundas declarações de amor como "Lembra-te de mim nos campos quando guardares as ovelhas e a cabra e quando sachares o milho continua a responder às cantas (...)".
Este será, muito provavelmente, o romance mais realista e encantador escrito sobre a vida nesta época no concelho de Arouca e um dos mais belos a nível nacional sobre este período da história de Portugal. É-nos contado muito sobre a vida em Alvarenga, mas chegam-nos também notícias sobre o país e sobre o mundo e a guerra que este vive, pela voz de Fernando Pessa, através da Emissora Nacional. Para o escrever, José Nuno Pereira Pinto investigou e recolheu testemunhos, que acrescentou às suas memórias de infância e próprias vivências.
O autor tem também outros livros menos romanceados acerca da história da sua terra tais como "A Primeira República no Concelho de Arouca. 1910-1926" e "Alvarenga e o Motim de 1942".
Em junho deste ano, o município de Arouca enriqueceu generosamente, devido à doação que o escritor fez do seu acervo literário, composto por mais de duas dezenas de livros, escritos em todos os géneros, incluindo poesia, conto, romance, teatro, ensaio. Obras todas escritas à mão cujos manuscritos são agora de todos os arouquenses, graças ao altruísmo deste escritor.
Voltando, antes de terminar esta crónica, ao livro que lhe dá título: é uma obra que todos - arouquenses e não só - deveriam ler e que devia, inclusivé, ser falada nas escolas da região, até porque José Nuno Pereira Pinto não fica em nada atrás de José Saramago.
Além de ser uma fonte histórica, é uma obra que nos envolve e desperta o interesse desde a primeira página. Porque fala de algo que nos é tão próximo, que é a nossa terra e as nossas gentes. Embora simultaneamente fale também da história de Portugal.
"Da Outra Margem", em suma, é um livro sobre uma determinada época, cuja narração poderia ser aplicada a qualquer espaço e que o autor escolheu privilegiar a sua terra que, por sorte, é também a nossa!
 
Arouca

Terça, 18 de Dezembro de 2018

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