CÁTIA CARDOSO
 
Nostalgia das desfolhadas
 
OPINIÃO | Hoje é cada vez mais raro acontecer
 
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Está oficialmente aberta a época de colheitas. A grande festa do concelho já terminou, mas ainda nem todos os produtos foram colhidos. Ainda há muitas uvas nas videiras e muito milho nos campos. O milho, aliás, é responsável por um dos momentos de colheita mais bonitos no âmbito da agricultura, cada vez menos comum: as desfolhadas.
Sabemos todos que, antigamente, as desfolhadas eram momentos de trabalho, claro, mas igualmente de festa e confraternização. Juntavam-se famílias e vizinhos para desfolhar as espigas de milho, por norma, num ambiente de boa disposição. Todos aqueles que participaram em desfolhadas terão, certamente, memórias jamais apagáveis e muitas histórias para contar.
Há associada a simbologia do milho rei, e contam os mais antigos que quando alguém encontrava uma espiga assim tinha de dar um abraço a alguém. Os rapazes, claro, aproveitavam para abraçar as raparigas (e talvez vice-versa), sendo as desfolhadas responsáveis também por namoricos e casamentos, alguns inclusive que ainda hoje duram.
Nas eiras, ou nos espaços onde se realizavam as desfolhadas, entre finais de setembro e inícios de outubro, o trabalho e a festa entravam pela noite dentro. No fim da desfolhada, havia baile para todos e, em alguns casos, ainda havia uma merenda partilhada ou oferecida pelo dono do milho.
Na memória, tenho as mágicas desfolhadas que começavam sempre depois de jantar, e acabavam de madrugada com regueifas, biscoitos de limão, vinho do Porto e sumos para as crianças que adormeciam cedo, em cima do folhelho (tão confortável!), mas acordavam algum tempo depois com a energia toda ainda antes do fim do desfolhar. (As crianças que viveram desfolhadas serão certamente mais felizes do que aquelas que nunca vivenciaram tão encantadora prática.)
Existem, sim, ainda. Mas não chegam já a todos. Aquilo que antigamente era rotina, por esta altura, hoje é cada vez mais raro acontecer. A magia das desfolhadas vai-se apagando de ano para ano. E ao falarmos de desfolhadas podemos também falar da broa caseira.
Depois de desfolhadas, as espigas de milho viajavam para os canastros. Posteriormente, debulhavam-se as espigas e moía-se o milho. Surgia então a farinha de milho que se usava para a confecção das broas. Há, hoje, quem ainda o faça, não por necessidade, mas por gosto, ou até pela saudade, pelas memórias que todo este processo traz.
Muitos jovens possivelmente nunca saberão, na prática, o que é uma desfolhada, ou o que é comer broa caseira, ou bolos de farinha de milho que vão ao forno com sardinhas ou salpicão em cima e saem de lá pintados de gordura num sabor exclusivo absolutamente divinal. Abençoadas, pois, as avós que, de vez em quando, e ainda que por súplica dos netos, lá vão fazendo a broa em casa. E sortudos aqueles que têm, nesta atualidade, a possibilidade de participarem em desfolhadas de família ou de vizinhos.
O cultivo do milho não é só importante pelo seu papel nutricional, é também um dos mais belos processos da agricultura, dos mais relevantes da nossa história, e um dos exemplos maiores do fascínio que é a agricultura e a natureza e aquilo que esta permite ao ser humano viver.
 
Arouca

Domingo, 18 de Novembro de 2018

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Que balanço faz do trabalho da Provedoria da Santa Casa da Misericórdia no mandato que está prestes a finalizar?
 
 
A Frase...

"Não discrimino nenhuma das antigas freguesias"

Ângelo Miranda, presidente da União de Freguesias de Arouca-Burgo", eleito pela coligação PSD/CDS, em entrevista ao RV

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