ARTUR NEVES
 
Aldeias seguras com vidas seguras
 
OPINIÃO | Artur Neves escreveu texto na edição impressa de aniversário do RODA VIVA
 
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Com gosto e satisfação correspondo ao pedido do RV para, sem condições prévias, escrever um artigo por ocasião do aniversário do jornal, ao qual transmito, antes de mais, os meus parabéns por estes já longos anos de edições noticiosas e de registos históricos para a posteridade.
Estando eu hoje muito presente no terreiro do paço, com o peso da honra de servir o XXI governo constitucional de Portugal, depois da honra de ter servido o governo local da minha freguesia de Alvarenga ao longo de oito anos e depois ainda da suprema paixão e honra com que servi o governo do meu concelho de Arouca ao longo de doze anos, não consigo alhear-me de memórias que guardo dos meus tempos de miúdo e de jovem. Do meu lugar da Granja, do trabalho do campo, da vida em família, da vivência comunitária, do esplendor da natureza, dos sons, dos sabores, dos aromas da terra, dos animais, das colheitas, da simplicidade dos homens e das mulheres e sobretudo dos valores que nos transmitiam os mais velhos, que se sentiam através dos gestos e das palavras, porque a honra da palavra era coisa séria e para se levar a sério. Lembro com particular nostalgia, as renhidas malhas de centeio que as equipas de malhadores ombreavam dias inteiros, três a três, frente a frente, de eira em eira, sempre procurando sobreporem-se pela força e pelas sincronizadas pancadas com que baniam os manguais sobre os fardos de centeio. Lembro as pêras mais maduras que caiam de um pereiro sobre a palha sempre que as vibrantes pancadas na eira faziam estremecer a árvore, e nós, os mais garotos, as disputávamos, uma a uma, em salutar competição. Lembro o ambiente das vindimas, das desfolhadas, da sacha do milho, da lavoura, da partilha do esforço comum, um dia na nossa casa mas amanhã no lagar, no palheiro ou nos campos dos vizinhos, sempre com espírito de entreajuda e plena vivência em comunidade. Pais, avós, filhos, netos, primos, tios e caseiros vindos de outras paragens e que por ali apareciam, sempre pela ocasião do S. Miguel, para trabalhar as terras de agricultores mais abastados, e muitas, muitas crianças que dividiam o tempo de escola com o trabalho na ajuda dos afazeres do campo. Na plena e dura liberdade do tempo de que cada um dispunha, na gestão que lhe queria dar, ditada
apenas pelos ciclos da meteorologia e das colheitas no sentido de obter boas searas, mas cujo resultado nunca redundava em salário - sim, é verdade, ninguém daquela comunidade, alguns com cinco, oito ou mais filhos, jamais soube, ao longo de toda a sua vida, o que significava receber um salário no final do mês. Um ou dois vitelos por ano, uma pequena ninhada de oito, nove ou dez porcos, uma ou duas pipas de vinho significava, para modestos proprietários rurais, o resultado do duro trabalho de um ano e o que permitia realizar algum dinheiro. Apesar deste magro nível de rendimentos, vários são os exemplos de alguns - verdadeiros heróis! - terem conseguido colocar os filhos em universidades e lhes terem dado rumo e ambição para outra vida; outros saíram simplesmente para ganhar nova vida na cidade, quase todos para Lisboa e Porto e outros procuraram o Brasil como destino preferido para emigrar.
Não quero avançar no texto sem lembrar os sons das podas, do canto das tesouras e dos ecos que se cruzavam vindos das pradarias; lembro também os cânticos dos lavradores, que durante dias inteiros orientavam o arado puxado pelas vacas e com elas dialogavam sempre a cantar: vai lá vaquinha vai eixe, vai lá para o rego vai; vai, vai lá Bonitinha, vai, vai... vai lá Formosa!... e sempre, sempre a cantar!
Lembro também os incêndios no monte ou na tapada, lá em cima, na boca do carreiro, perto da carreira dos moinhos, e do tio Zeca que logo aparecia para todos reunir. Vamos embora - dizia com voz forte e aflita. E todos, crianças, jovens e os mais velhos, munidos de enxadas, de ramos verdes de giesta ou de carvalho, rua acima para enfrentar o fogo , onde muitas vezes já estavam, na ausência de bombeiros que não existiam, os vizinhos de outros lugares para ajudar - e o fogo rapidamente se apagava!
Hoje, por força das minhas funções, são muitas as aldeias de Portugal que visito, e em quase todas elas sinto o mesmo ambiente e as mesmas histórias de um passado recente, que o país silenciosamente
foi esquecendo - esqueceu aqueles que ainda resistem em viver no espaço que os viu nascer, que os viu crescer, formar família e, pese embora todas as dificuldades, viverem felizes!
Foram muitos os que saíram, porque assim tinha que ser e porque a vida, a economia e o mundo transformou-se a grande velocidade. Mas a vida das aldeias ainda sobrevive porque os descendentesainda regressam nas férias, alguns ainda lá constroem casa para gozar a reforma na terra que os viu nascer. E há ainda alguns, poucos, que vindos da cidade à procura do campo, ali procuram algum sossego. Mas os campos e montes abandonados e à mercê da natureza constituem espaços de risco para as aldeias e para esses que ainda lá residem. As casas isoladas e mal licenciadas no meio da floresta, que "sairam" da ordem urbana e ancestral dos aglomerados, colocaram-se voluntariamente, e por opção dos interessados e com aval da entidade pública administrativa, junto do risco. A vegetação espontânea, as plantações desordenadas e mono-culturais invadiram áreas de proteção de linhas de água, de lazer e de vivência das aldeias. O que antes era tratado, limpo, aproveitado, hoje acumula elevadas quantidades de biomassa altamente combustível, que ciclicamente arde com elevada violência, sendo motivo de ameaça para mais de dois terços do espaço físico do país - para as pessoas e seus
bens, para a fauna, flora e o ambiente em geral!
Portugal tem o desafio, que constitui um supremo desígnio, de saber como encontrar caminho para a renovação de novas gerações e de saber como desenvolver a sustentabilidade de novas vidas no interior profundo - e com isso gerar novas dinâmicas sociais e económicas ajustadas aos novos tempos e com princípios capazes de renovar as lindas histórias de vida das aldeias ainda de tempos recentes. Já todos percebemos que o trabalho que muitos braços antes exigia, hoje, com o apoio das máquinas, são poucos os braços necessários para executar o mesmo trabalho de outros tempos. Mas mesmo estes que ainda trabalham os campos, em regime mais extensivo nas aldeias de minifúndio, não sobrevivem apenas com o rendimento auto-sustentável da terra. Terão que ter um salário de outra atividade para terem condições de trabalhar na agricultura e obter um complemento para o seu rendimento, e com isso contribuir para a sustentabilidade e para o equilíbrio ambiental dos ecossistemas. É pois forçoso dar outra dimensão económica às regiões do interior, nomeadamente com indústria tradicional associada a novas e inovadoras tecnologias, que se instalem mediante regras de ordenamento que se ajustem aos territórios e a potencialidades endógenas ali presentes; é necessário dar gestão em escala ao rico potencial florestal dos nossos terrenos montanhosos, com fundos de investimento que acompanhem uma visão de longo prazo.
Tenho muita esperança na reforma florestal que está em curso, com medidas aprovadas pelo Governo, que vão desde o cadastro da propriedade rústica, à criação de sociedades de gestão florestal, passando pelos novos planos de ordenamento florestal, pelo plano nacional de fogo controlado e pela criação de centrais de biomassa, entre outras medidas. E em paralelo não deixa de ser muito relevante as medidas de apoio ao pastoreio na lógica "sapadora" e em versão moderna dos princípios tradicionais seculares. Esta reforma, pelo seu alcance no ordenamento e na gestão de espaços florestais, bem como na resiliência dos mesmos aos incêndios, é da maior importância. Sobretudo quando se acentuam as alterações climáticas, o envelhecimento demográfico e o despovoamento dos territórios.
Entretanto, e porque tal reforma só produzirá efeitos daqui a longos anos, temos que acertar em apostas imediatas no que pode afirmar a diferença - e Arouca é um exemplo para o país! - dos territórios do interior, quase todos com potencialidades ainda por explorar, para que se possa continuar a sentir a alegria da vida, em ambiente sustentável e seguro, mas com esperança e certeza no futuro!
 
Arouca

Domingo, 16 de Dezembro de 2018

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