TEIXEIRA COELHO
 
A Freita renasce das cinzas
 
OPINIÃO | A Natureza, sempre generosa, vai-se recompondo
 
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Na memória das populações residentes na serra da Freita permanece viva a figura da 'Guarda da Floresta'. Frequentemente vêm a assunto de conversa episódios que marcaram essa presença na Freita dos 'Serviços Florestais'. Recordam-se os viveiros do Merujal e da Granja e o repovoamento da floresta feito com recurso a mão-de-obra local. Foi pelas décadas de quarenta-cinquenta do século passado que a Freita começou a encher-se de pinheiros e outras espécies, infelizmente pouco diversificadas. Contam-se conflitos entre os pastores da Freita e os guardas resultantes da política repressiva que limitava os direitos ao uso dos baldios. Conflitos que noutras terras desencadearam lutas bem violentas, como lembra Aquilino Ribeiro no romance Quando os Lobos Uivam. Nomeiam-se as 'Casas dos Guardas' e ainda há quem decline nomes e histórias que marcaram a presença desses vigilantes da serra. Recordam-se ‘engenheiros da floresta', funcionários superiores dos 'Serviços Florestais', e a sua relação, mais ou menos tolerante, com o Povo. Dentre eles destaca-se na memória de todos, pelas melhores razões, um nome, o do engenheiro Próspero dos Santos.
Inopinadamente, os 'Guardas da Floresta' foram retirados da Freita sem que se percebesse com que vantagem para a administração e segurança do património florestal e das povoações disseminadas pela área. Os acessos a veículos automóveis foram sendo melhorados e a serra tornou-se, para uns, um oásis e, para outros, um refúgio para práticas nada recomendáveis.
As casas que serviram de habitação, para os Guardas, e de centro de algum apoio administrativo, para as populações, ficaram, a partir de então, vazias, abandonadas e entregues à sua sorte. Tratava-se de edifícios sólidos, de agradáveis linhas arquitetónicas, implantados em locais estrategicamente escolhidos.
A Freita tornou-se ‘terra de ninguém' e viu-se exposta a toda a espécie de vandalismos. As ‘Casas dos Guardas' foram sendo espoliadas, esventradas, destruídas, com requintes de inimaginável malvadez. As placas de sinalização, frequentemente, roubadas ou alvo da pontaria de atiradores furtivos. A ingénua e nunca suficientemente explicada instalação, a céu aberto, de binóculos em diversos pontos da serra foi rapidamente neutralizada por roubo. As queimadas começaram a suceder-se de modo anárquico e arbitrário com as consequências que todos conhecemos. Esforços episódicos para associar as populações na defesa do seus interesses e dos seus direitos não tiveram efeito devido à desagregação dos povos da serra, quer pela emigração, quer pela destruição dos factores de coesão social e territorial, como foram, historicamente, os ‘Guardas da Floresta', quer pela mentalidade individualista que se instala desde há algumas décadas na cultura vigente.
Um pavoroso incêndio, em 2016, varreu e destruiu a quase totalidade da cobertura vegetal da Freita. Mas a realidade é dinâmica. Vão desaparecendo os cadáveres tisnados das árvores mortas pelo fogo e a Natureza, sempre generosa, vai-se recompondo.
Um tapete verde, ainda tímido, cobre, hoje, o planalto da Freita e o amarelo da carqueja, aqui e ali, sorri num festival de cor, a recordar o que já foi a deslumbrante paisagem de todo o planalto, em tempos não muito distantes.
A Freita renasce das cinzas e das sombras em que viveu. O Geoparque, nos geossítios locais, é um verdadeiro livro que abre páginas eloquentes sobre a formação da crosta terrestre; o Radar Meteorológico com a sua varanda que dá para o mar e para os quatro cantos do Mundo, permite aceder a paisagens e horizontes insuspeitados; a aldeia da Mizarela, recentemente dotada pela iniciativa de um habitante local com um hotel rural de inegável qualidade, cresce pela fixação dos seus habitantes nativos e pela mão estendida a quem de fora, a dois passos do litoral, ali queira encontrar a qualidade de vida que procura. A Freita é hoje um destino turístico muito procurado por motivos de lazer e de cultura.
Mas... as ‘Casas dos Guardas' permanecem na Freita documentos de um passado que se recorda com saudade e com um assomo de revolta. Permanecem quais sentinelas derrotadas, levantando o dedo acusador a quem passou ao lado das suas responsabilidades políticas. Por incompetência? Por imposição do enquadramento legal?
Vale a pena uma romagem pelo que resta das ‘Casas dos Guardas' na Freita: a da Granja, a do Merujal, a da Cota, a da Agualva, a da Borbulha...
 
Arouca

Sexta, 14 de Dezembro de 2018

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