ARMANDO ZOLA
 
"Cenário de guerra" no hospital
 
OPINIÃO | Puseram-me a pulseira e dirigiram-me para um corredor
 
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O Centro Hospitalar de Gaia tem como área de influência, para os casos de mais elevada complexidade, todos os concelhos a norte do rio Vouga, por conseguinte, o de Arouca também.
Do respectivo serviço de urgência, disseram dezenas de directores de serviços desse Centro Hospitalar, segundo o JN de 28 de Março passado, que parece "um cenário de guerra".
Cenário de guerra, não sei. Que é confrangedor, degradante, desumano, isso é.
Passei, nesse serviço de urgência, como acompanhante de um familiar, várias horas da tarde do dia 19 de Novembro de 2017, domingo. Acedi, pela entrada de doentes e feridos, a um espaço (não se lhe pode chamar sala) descuidado, degradado, sem luz natural, extremamente exíguo para tanta gente que nele se acumulava: feridos e doentes, uns sentados nas velhas e incómodas cadeiras, outros em cadeiras de rodas, outros ainda nas macas das ambulâncias, mais acompanhantes, bombeiros, funcionários do Hospital, uns fardados, outros não, todos ali amontoados naquele pequeno e exíguo espaço.
Doentes e feridos ali, no amontoado, à espera, com o desespero e o sofrimento estampado no rosto, os acompanhantes com expressão de angústia, os funcionários de rosto fechado e ar cansado. As ambulâncias não paravam de chegar. Com mais feridos, mais doentes, mais dor, mais sofrimento.
Pensava eu no que via, quando um funcionário fardado, de cara fechada, me interpelou: "é doente?" Não, felizmente, sou acompanhante. "Então não pode estar aqui, recebi ordens, tem de passar, como os outros acompanhantes, a outra sala, pedir uma pulseira e ficar lá." E o doente, quando sair, como me encontra? Abriu os braços, encolheu os ombros. Não sabia.
Puseram-me a pulseira e dirigiram-me para um corredor. Um corredor comprido, mas acanhado, tantos eram, nele, os doentes e os acompanhantes: uns em macas, outros encostados às paredes, e outros sentados no próprio chão. Rastreados, estavam ali. Não sei por quanto tempo iriam estar mais. Nos seus rostos, de olhar perdido, a mesma imagem do sofrimento e da angústia. Cenário de guerra? Pelo menos um cenário terrivelmente desumano nas circunstâncias em que o ser humano mais fragilizado se encontra.
Não queria que isso existisse, mas, existindo, queria, e senti que devia, ver o que vi. Visto, quis sair dali. Trouxe-me ao primeiro espaço um jovem médico, muito próximo, muito amigo, que encontrei, apressado, no meio de toda aquela confusão. Nunca o vira tão cansado, de semblante tão alterado.
No primeiro espaço, deparei-me com o mesmo funcionário fardado, o qual me disse, e aos demais acompanhantes, que acabara de receber novas ordens e que, por isso, já não podíamos estar no edifício e tínhamos de passar para um pequeno compartimento no exterior. Sem mais, pegou numa tesoura, cortou-me a pulseira e indicou-me, e aos mais, o espaço exterior onde deveríamos concentrar-nos. Um espaço muito pequeno, a abarrotar de pessoas angustiadas, desesperadas, sem informações dos seus doentes, umas sentadas nas poucas cadeiras aí existentes, outras, cansadas, de pé e outras ainda sentadas no chão frio desse espaço.
Numa folha do jornal que estava a ler, sobre as suas próprias letras, por não ter outro papel, anotei o que acabara de presenciar e sentir naquele serviço de urgência. Do então anotado, extraí o resumo que aqui deixo ao juízo dos leitores.
 
Arouca

Quinta, 24 de Maio de 2018

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