ELÍSIO AZEVEDO
 
Chegou a primavera
 
OPINIÃO | As pequenas ‘leiras de monte’ passaram a ter mais um encargo obrigatório
 
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Depois de um Outono que não deixa saudades e de um Verão que não mais será esquecido, chegou a Primavera - uma quarta-feira de sol luminoso e um céu azul sem farrapo de nuvem.
A natureza, castigada por um longo Inverno, resplandecia, mas logo regressou a ventania e a chuva, a geada e o granizo, anunciando um Abril de "águas mil" que vai obrigar a queimar o "carro e o carril" no aconchego do lar e anuncia um Maio em que as primeiras cerejas "se comem ao borralho" - é a tradição que se cumpre e o saber popular se confirma.
Para além disso, os partidos políticos, na Assembleia da República e fora dela, continuaram a trocar acusações e atribuir responsabilidades uns aos outros pelas falhas que potenciaram a violência dos incêndios que devastaram riquezas e espalharam o luto, numa tragédia sem precedentes - teria sido bem útil que todos tivessem assumido as suas próprias responsabilidades, tomando decisões ou, pelo menos, seguindo o exemplo do Presidente da República, todos vestindo a preceito, de roçadora em punho e meios de comunicação social a trás, tivessem dado uma ajuda na limpeza das matas.
Todos sabem, todos sabemos, que para além das contingências e adversidades, uma das principais razões pelas quais, todos os anos, ardem milhares de hectares de floresta, é a desertificação - é o abandono do interior, são as aldeias desertas ou onde apenas ainda residem populações envelhecidas; são escolas, tribunais e serviços, estações de correio e agências bancarias encerradas, é o abandono, é o esquecimento. O próprio governo o reconheceu, fazendo promessas, promessas em que já ninguém acredita e se repetem sempre que há eleiçôes à vista.
O Governo só foi rápido a legislar - a impor aos proprietários a limpeza dos terrenos à volta dos pequenos povoados e instalações dispersas e dez metros de cada lado de vias municipais, conferindo aos executivos o direito e a obrigação de substituir os proprietários que não o façam, procedendo depois à cobrança e confiscando, ainda por cima, a madeira abatida.
As pequenas leiras de monte, que sempre foram o magro mealheiro a que os proprietários das aldeias dispersas recorriam para enfrentar grandes e inesperadas dificuldades passaram a ter mais um encargo obrigatório que muitos dos que ainda não abandonaram a sua aldeia não têm forças para cumprir nem recursos para pagar.
O mealheiro transformou-se num encargo que se junta ao IMI e é por isso que ao longo de algumas vias municipais já se encontram cartazes anunciando a venda de pequenas "leiras de monte" que deixando de ser uma reserva a que se recorria em momentos difíceis, se transformaram em encargos que não têm forças para cumprir, nem meios para satisfazer.
Aproxima-se mais uma época de incêndios - partidos e Governo continuam a atribuir culpas uns aos outros mas de positivo e concreto para enfrentar a situação e de uma vez por todas olhar para o interior e combater as desigualdades e assimetrias regionais nada se fez, além de promessas em que poucos ou ninguém mesmo acredita.
Os incêndios também se combatem fiscalizando e, sobretudo, investindo no interior, criando infra-estruturas que atraiam investimentos e oportunidades de trabalho, em igualdade de circunstâncias com o litoral, no respeito pelas especificidades e recursos de cada uma das regiões.
Nunca mais vai ser esquecida a tragédia dos incêndios que enlutou o país em 2017, das vitimas cercadas pelo fogo, sufocadas pelo fumo, de que ninguém ouviu os gritos, que ninguém conseguiu socorrer - nunca mais vai ser esquecido o sofrimento de populações inteiras, nem, sobretudo, serão esquecidas as vitimas que o fogo causou e que não há indemnização que pague nem expiação que reconforte.
Não há dinheiro que pague uma vida e há feridas que nem o tempo cura...
 
Arouca

Quinta, 24 de Maio de 2018

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