ELÍSIO AZEVEDO
 
Mais de cem mortos depois
 
OPINIÃO | As populações do interior não têm estradas dignas e necessárias mas também pagam IMI
 
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Mais do que mais de cem mortos depois, mais do que centenas de casas devoradas pelas chamas, e mais do que centenas de milhares de hectares de floresta destruídos; mais do que centenas de milhões de euros perdidos, mais do que dezenas de indústrias devoradas pelas chamas, mais do que centenas de animais enterrados, mais do que o espectro dos troncos denegridos pelas chamas, mais do que o manto
de cinzas, mais do que o indecoroso aproveitamento político de uma tragédia que a todos nos envergonha, ficam, e para sempre, dos grandes incêndios de Pedrogão Grande e de Oliveira do Hospital, os gritos desespero das populações e as lágrimas de revolta e de saudade de famílias devastadas e que perderam tudo - recordações e haveres, vizinhos, familiares e amigos, por culpas que ninguém espia e responsabilidades que ninguém assume.
E fica mais, fica o exemplo de solidariedade de milhares e milhares de cidadãos anónimos, que, correndo em auxílio de quem tudo perdeu e já nada tinha, deram uma lição a quem tinha o dever de ser o primeiro a fazê-lo e só tarde se sentiu obrigado a acudir.
As feridas e o luto vão ficar para sempre no coração de populações inteiras e permanecer vivas e por muitos anos na paisagem devastada pelas chamas. Vão ficar para sempre os gritos de desespero
a denunciar a desertificação de um interior esquecido e abandonado - um interior que Lisboa que
tudo concentra e desde há muito esqueceu e abandonou, a quem nada concede mas tudo exige.
As populações do interior não têm estradas dignas e necessárias nem o Estado nem as Câmaras limpam
as bermas dos caminhos mas também pagam IMI, muitas delas não têm médico de família garantido e têm de recorrer a hospitais situados a centenas de quilómetros da sua residência mas também descontam para a Segurança Social; encerraram-lhes Escolas, Serviços e Tribunais e agora têm
de procurar Justiça a centenas de quilómetros da casa onde vivem, mas também pagam custas e emolumentos; o comércio que ainda resiste e os industriais que ainda se aventuram, pagam IRC; todos, os velhos e novos, comerciantes, agricultores e industriais, pagam, como todos os que vivem e trabalham em Lisboa e seus arredores e de tudo beneficiam e que as populações do interior que ainda resistem não têm, esquecidas e abandonadas, os impostos, taxas e taxinhas que os demais suportam, em grande desigualdade de circunstâncias e é dessa desigualdade e circunstâncias que resulta, em muitos casos, a desertificação, o abandono e a violência dos incêndios que todos os anos se repetem.
Apesar disso também votam e elegem os seus representantes na Assembleia da República. Só que muitos dos senhores deputados que nos representam a todos, entram mudos e saem calados durante todo o mandato e logo que empossados se esquecem das promessas feitas - limitam-se a cumprir o ritual de se levantar ou sentar às ordens do Presidente da Assembleia da República e e acordo com as instruções recebidas do líder da bancada - e, portando-se bem, arriscam-se a ser reeleito, a sair com uma reforma ou ser recompensado com um assento no conselho de administração de uma grande empresa ou abichar uma sinecura num qualquer organismo de Estado onde a clientela partidária se acomoda.
A floresta arde não apenas porque está desordenada - arde porque o interior do país foi abandonado. Arde porque a população das aldeias emigrou, fugindo ao desamparo e ao esquecimento, deixando ao abandono campos, casas e floresta.
Arde porque para se construir uma estrada com vinte ou trinta quilómetros é preciso esperar vinte ou trinta anos e porque Lisboa fica longe de tudo e o litoral de costas voltadas para o interior e enquanto for assim, não haverá Protecção Civil que nos proteja, nem Bombeiros para apagar tanto fogo.
Enquanto for assim, Portugal continuará a arder.
 
Arouca

Segunda, 18 de Dezembro de 2017

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