POLÍTICA LOCAL
 
«A presidente da Câmara criou uma ilusão na população de que tudo está bem»
 
Tiago Mendes
ENTREVISTA | Tiago Mendes, ex-líder da JSD Arouca, vai fazer pausa na política activa
 
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Apesar de ainda jovem, Tiago Mendes, 27 anos de idade, estudante de medicina, é já uma certeza na política local. Começou como presidente da Associação de Estudantes da Escola Secundária de Arouca, foi líder da JSD local, fez um mandato de deputado na Assembleia Municipal e integrou o Conselho Nacional do PSD.
Com um discurso escorreito e estruturado, aborda os principais problemas que ainda dificultam o acesso de Arouca a patamares superiores de desenvolvimento, não esquecendo as dificuldades que os jovens sentem na sua terra para se fixarem. A falta de uma política para a juventude é outra das críticas que faz aos executivos socialistas que têm governado o município. Vai fazer uma pausa na sua actividade política activa, não fechando, contudo, a porta a novos desafios no futuro, porque Arouca e a política são duas paixões que sente desde tenra idade.

Depois de três mandatos à frente da JSD Arouca, que balanço faz do seu trabalho?
Em primeiro lugar, gostaria de agradecer a oportunidade para deixar escrita uma reflexão sobre os tempos em que tive o privilégio de liderar a JSD Arouca. Iniciei o meu percurso na JSD com muita vontade, muita irreverência, muito pensamento escrito, muita vontade de criar as melhores propostas, estudar muito os assuntos, falar com as pessoas para sentir as suas necessidades, procurar conselhos. Acho que isso foi uma mais valia, permitindo-me liderar equipas com jovens de enorme valor, determinados, nada resignados e sempre empenhados em dar o seu melhor. Penso que foi feito um bom trabalho, importante, que a juventude nos reconhece proximidade, preocupação com os seus problemas e capacidade para os solucionar, com ambição, responsabilidade, realismo e sem medo. Pessoalmente, sinto-me de consciência relativamente tranquila, sentido de missão cumprida, mas ainda com muito para construir no futuro. Tentarei sempre estar na política de acordo com o meu maior lema na defesa da causa pública, desde o meu início, que é o imperativo categórico de Kant, filósofo alemão: "Age sempre de tal modo que a máxima da tua acção se torne lei universal".

Os jovens de Arouca estão "despertos" para a vida política?
Sem dúvida, estão. Há que reconhecer muito valor aos jovens arouquenses. Da minha experiência pessoal, sou abordado diariamente sobre todos os temas, o que pensa a JSD sobre determinado assunto, quando alguém sente que devíamos intervir de imediato sou contactado. Arouca tem uma cultura de dinâmica jovem muito forte, com o contributo fundamental que as associações dão, mas também as estruturas políticas e sobretudo o PSD Arouca, permitam-me que o diga, que luta incessantemente pela valorização dos jovens, preocupando-se com a sua saída do concelho, querendo criar as melhores condições para a sua fixação. E é importante que no Mundo politicamente correcto de hoje, dos padrões estabelecidos e da obediência aos poderes instalados, se preserve a independência da juventude, se fomente o seu espírito crítico, o pensamento e espaço próprio. Nem sempre é feito em Arouca, mas deixo para reflexão.

Quais são as principais reivindicações dos jovens arouquenses?
Há assuntos para mim que são fundamentais e que deveriam ser tratados com prioridade. A questão da mobilidade e dos transportes, que nos dias de hoje nos isola do mundo do crescimento, dos grandes centros onde existe a educação superior, as maiores empresas, os serviços, muitos deles retirados
aos arouquenses. A falta de habitação a preços acessíveis para os jovens que querem construir família, é
um grave problema com o qual sei que lidamos e sobre o qual sou abordado quase diariamente. Falta atrair investimento do exterior, condições para um clima de criação de riqueza, de estímulo ao aparecimento de novos negócios, com rendas acessíveis, com estímulos fiscais adequados, para que se aumente a necessidade de emprego qualificado, bem remunerado, que já existe mas que é insuficiente. Acrescento a necessidade da criação de um elo de ligação aos jovens que saem para estudar aos 18 anos, aquilo que a JSD insistiu durante muito tempo, onde teve por exemplo um papel preponderante na questão das bolsas de estudo - foi trabalho nosso, porque os jovens de Arouca merecem e dispunham até então de verbas residuais do nosso orçamento. Os jovens queixam-se muitas vezes da inexistência de um plano cultural adequado aos dias de hoje, que integre tradições populares mas que permita acesso também às novas tendências. Faltam ainda infraestruturas adequadas, propusemos durante anos a reabilitação da Biblioteca Municipal, para que se criasse um espaço com condições dignas, melhoria das condições dos complexos desportivos - foram feitas pequenas melhorias, apesar do primeiro desprezo e negação daquilo que alertámos -, criação de um Auditório Municipal, que considero absolutamente fundamental para Arouca evoluir. Todas estas questões a meu ver constroem um clima de pressão que
precipita a saída dos jovens de Arouca, sem retorno, na procura de mais oportunidades, que existem em municípios vizinhos e no nosso não.

Como se estanca a hemorragia de saída de jovens arouquenses do concelho que se vive presentemente?
Em primeiro lugar, com conhecimento dos dados e reconhecimento do problema. A negação do problema
é o principal e primeiro problema. Estive quatro anos na Assembleia Municipal, falei inúmeras vezes sobre esta questão, que foi amplamente desvalorizada pelo anterior presidente. Já neste mandato procurei intervir nas assembleias municipais, sendo curioso que quando falei deste problema com números concretos, a senhora presidente revelou um desconhecimento absoluto dos mesmos, o que é grave e está documentado em acta. Tendo por base aquilo que referi na última questão, resumidamente, o caminho deve ser na aposta na criação de riqueza, de procura de investimento, de melhoria das acessibilidades e transportes, de criação de infra-estruturas adequadas para o desenvolvimento pessoal e social dos arouquenses. A meu ver, seria importante dar a oportunidade aos jovens, presentes em todas as forças vivas do concelho, de ter voz, no Conselho Municipal de Juventude, há muito proposto pela JSD, com regulamento feito por nós, ajustado àquilo que é a lei e ao nosso contexto local.

O que faria diferente o PSD no poder em Arouca relativamente à juventude?
Tenho a certeza absoluta que se o PSD fosse poder em Arouca, os arouquenses e os jovens em particular estariam melhor, com mais oportunidades e perspectivas de futuro. O PSD é um grande partido, com muitas pessoas envolvidas e com opinião própria, encontrando nas divergências e na pluralidade as melhores propostas, pensadas a longo prazo. Se o PSD fosse poder teríamos uma biblioteca municipal digna, um auditório municipal, teríamos mais apoios aos estudantes, às famílias recém criadas, aos jovens empresários, mais e melhor transporte para os grandes centros, entre outros aspectos. Se o PSD fosse poder haveria maior espaço para crítica, respeito pela liberdade individual sem tentativa de condicionamento da mesma. No dia em que for, tenho profunda convicção que esse dia chegará, os arouquenses testemunharão o amor que este partido e as pessoas que o compõe têm, bem como a sua capacidade para alcançar o progresso em Arouca.

Como surgiu na política? Quem o influenciou?
Eu sempre sonhei mudar o mundo, acho que há uma qualquer força dentro de mim que desde cedo me motivou. Sempre gostei muito de ler, de cinema, da arte no seu todo, de pensar, de questionar os porquês. A minha maior influência foi sempre a minha família. As tradições familiares de partilha de vivências, de longas conversas sobre todos os assuntos, ouvir as histórias dos avós do tempo das minas, das bandas de música, dos pais e tios com o 25 de Abril, tudo isso sempre me inspirou e me fez sonhar. A escola teve também um papel fundamental, tive professores que me marcaram muito.

E qual a sua referência política nacional?
Gosto muito de história, desde sempre, deixando-me frequentemente inspirar pelos grandes líderes do passado, pelas suas reflexões escritas, pelas decisões importantes nos momentos difíceis, pelo seu legado. D. João II, o "Príncipe perfeito", é talvez a minha maior referência histórica, pelo papel hercúleo que teve na exploração marítima e na afirmação de Portugal no Mundo. No Portugal republicano democrático, escolho Pedro Passos Coelho, grande estadista português, o homem certo para as horas más, que devolveu a oportunidade a um país falido pelo desastre da má governação. Confesso que recentemente tenho procurado aprofundar o meu conhecimento sobre o general Ramalho Eanes e estou fascinado, precisamos de líderes da sua natureza nos tempos que correm. No plano literário, que é sempre uma referência para mim, Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda, o herói do livro que todos os que têm ambições políticas deviam ler, "A queda dum anjo", de Camilo Castelo Branco. No plano internacional, Churchill, JFK, Olof Palme, Gorbachev, o Che da idade da irreverência e claro Nelson Mandela - cada um no seu contexto.

Gostou da experiência no Conselho Nacional do PSD? O que aprendeu nesse órgão partidário?
Foi uma oportunidade fantástica. Eu era o mais novo do mandato e o Conselho Nacional do PSD é um órgão com uma importância enorme na vida do nosso partido, além de ter sido eleito por uma lista liderada pelo Carlos Reis, um dos melhores quadros do nosso partido, um deputado que está a realizar
um trabalho notável, ou seja, a responsabilidade acrescia. A título de exemplo, fui um dos sete que fez a diferença na votação da moção que deu confiança ao líder Rui Rio para continuar a exercer o seu mandato, numa altura decisiva da vida do partido. Procurei intervir sempre, como sabem gosto de usar da palavra para expressar as minhas opiniões, sempre com muito estudo por trás para fundamentar. Falei de saúde, de educação, cultura, ambiente, com reflexões mais gerais ou com propostas mais específicas e que vi escritas posteriormente nos documentos do partido. Falei de Arouca, dos problemas dos transportes, ambientais, procurando sempre fornecer uma visão de um meio como o nosso e da necessidade de equilibrar o território no plano nacional. Aprendi muito, mesmo, penso que conquistei o meu espaço e que gostavam das minhas intervenções. Ter a oportunidade de falar olhos nos olhos com o líder do partido, é óptimo. Com respeito sempre, em concordância ou discordando, acho que o Dr. Rui Rio me considerou e prestou atenção.

A JSD Arouca fica bem entregue ao Paulo Miler?
Fica muito bem entregue. O Paulo é um quadro de excelência da JSD a nível nacional, um homem com um pensamento profundamente estruturado, muito alicerçado na literatura, na história, com muito conhecimento, além de ser já um excelente profissional, com um brilhante currículo académico. Além disso, permitam-me que deixe também uma palavra de confiança e de motivação a todos os elementos da nova equipa da JSD, que farão certamente um óptimo trabalho. Somos uma estrutura com muito futuro e Arouca ganhará certamente com o valor que existe nestes jovens.

Acredita no regresso do PSD à liderança da autarquia arouquense em 2021?
Sendo um optimista por natureza, acreditarei sempre que é possível. É extremamente difícil, diz-nos a história que as candidaturas a segundos mandatos normalmente consolidam o poder. No entanto, tendo em conta as fragilidades demonstradas pelo actual executivo camarário, pela sua inacção em temas fundamentais para os arouquenses, tais como a questão ambiental, a água e o saneamento, a questão florestal, a incapacidade de atrair investimento e criar riqueza, entre outros, penso que sim. O PSD tem um caminho alternativo, em 2017 apresentou-se com força, unido, com um projecto ambicioso, com propostas em todos os quadrantes, exequíveis, merecendo por isso, sem dúvida, uma oportunidade. Não tenho dúvidas que os arouquenses teriam muito melhores condições de vida com o PSD no poder autárquico.

Que estratégia deve seguir o partido para alcançar esse objectivo?
Parte do caminho para se conseguir esse objectivo já começou a ser feito, desde o dia a seguir às eleições de 2017. Se for feita uma avaliação séria, o trabalho do PSD na oposição, condição muitas vezes ingrata, tem sido extraordinário. Os vereadores tem uma apresentado uma quantidade enorme de propostas nas reuniões de Câmara, são incansáveis na sua função, apesar do manifesto desprezo que a senhora presidente demonstra pelas ideias apresentadas, como é bem sabido, acabando no entanto por aproveitar as mesmas e ainda bem. Os autarcas do PSD igualmente, quer na assembleia municipal, quer nas juntas de freguesia. O PSD Arouca tem trabalhado muito a comunicação, tem procurado unir todos os esforços e sei que está já motivado a trabalhar no terreno para as próximas eleições. Deixo uma palavra de enorme louvor ao presidente da comissão política do PSD, Rui Vilar, pelo trabalho que tem feito, pelo cuidado que tem a tratar todas as questões, é um político de futuro e com muito para dar. A meu ver, devem ser escolhidos bons candidatos às juntas de freguesia, boas equipas à Assembleia Municipal e à Câmara Municipal, deve-se apostar nos jovens e procurar projectar a sua ambição para o papel político. Estando certo que sairão e entrarão diferentes protagonistas, acho que a estratégia de continuidade deve ser seguida, melhorando todos os aspectos negativos.

Qual o perfil do candidato social-democrata?
O candidato social democrata deve ser uma referência para todos os arouquenses, próximo da realidade,
que conheça os principais desafios a que somos chamados todos os dias, que seja um vencedor nato na sua vida, que saiba apontar um caminho e mobilizar tudo e todos à sua volta para vencer. A política precisa de mais pessoas por missão e menos por necessidade de promoção. O que é certo é que os dias de hoje, da realidade virtual, da ilusão de sucesso pelo mediatismo de prémios, precipitam líderes menores, que se escudam na manipulação da opinião pública. Posto isto, tenho a certeza que o PSD Arouca fará uma boa escolha, não querendo aprofundar mais o assunto. O candidato às últimas eleições autárquicas é o Homem que me deu a vida, um ser humano extraordinário que admiro, muito devoto ao serviço em prol do próximo, merecendo-me o assunto, como tal, algum recato.

Deve coligar-se novamente com o CDS?
Uma vez que deixei recentemente a liderança da JSD, estrutura que terá certamente a sua opinião própria, preferia não ser absoluto na resposta, até porque os órgãos responsáveis pela tomada de decisão ainda não reuniram. Mas sinto que seja justo dizer que em 2017, processo autárquico em que estive directamente envolvido, foi criada uma excelente base de entendimento entre o PSD e o CDS, com os seus presidentes Rui Vilar e Pedro Vieira, homens de muito valor, a fazer um trabalho extraordinário para procurar numa dinâmica difícil criar consensos, escolher os melhores candidatos, criar as melhores
propostas. Perante esse cenário e sendo militante do PSD, reconheço muito valor no CDS em Arouca, nos seus autarcas, na Juventude Popular, esperando obviamente que no futuro sejamos todos capazes de unir esforços.

Qual a sua opinião sobre o actual mandato de Margarida Belém à frente da Câmara?
Sinceramente acho que não tem sido um bom mandato. Pelas razões que já referi, penso que Arouca continua com muitos problemas para resolver, a todos os níveis e existe uma inabilidade total para o fazer. A senhora presidente, usando os meios de comunicação do município, criou uma ilusão na população de que tudo está bem, que somos exemplo para o país, uma referência. Não somos, temos um enorme potencial para vir a ser no futuro, mas há ainda um longo caminho a percorrer. Analise-se novamente a questão do saneamento, da água, dos transportes, das estradas, da perda de serviços. A resposta é sempre a mesma, "não é nossa responsabilidade". "O inferno são os outros" já diria Jean Paul Sartre, e com essa premissa, rejeita-se a crítica, recusa-se o papel de defesa do nosso território e das pessoas que procuram respostas para os seus problemas, não tendo quem as defenda, junto das entidades superiores. Com diplomacia, respeitando as instituições obviamente, mas com determinação, argumentos fortes e fundamentados e perseverança, tudo se consegue. Fosse outra a postura e muito melhor estariam os arouquenses. Permitam-me que chame a atenção para a questão ambiental, algo que me preocupa desde muito novo. Arouca arde constantemente, os ecossistemas são destruídos continuamente, os rios estão poluídos a uma escala que devia envergonhar quem tem responsabilidades políticas, a questão do lixo doméstico e a sua recolha tem merecido repúdio diário nas redes sociais, mas continua-se a clamar a "valorização do território" e a "valorização dos recursos naturais" como prioridade.

Está nos seus objectivos integrar a lista para a CMA ou AM na próxima legislatura autárquica?
Neste momento, com 27 anos, a minha prioridade é reorganizar a minha vida académica, investir no meu desenvolvimento pessoal, adquirir mais competências técnicas e profissionais para atingir todos os meus objectivos. A Política é uma arte nobre, fascinante, mas para que eu seja verdadeiramente fiel aos meus princípios, preciso de investir mais nas minhas qualificações neste momento. Da mesma forma que eu identifico a personalidade política como referência, se um dia desempenhar um cargo político relevante,
espero ser identificado como tal. No entanto, estarei sempre ao dispor do meu partido para ajudar no que for necessário, procurarei intervir sempre na sociedade e se um dia acordar e sentir que posso fazer melhor e que a minha missão é servir, não me resignarei. Sinto que esse dia chegará, mas primeiro tenho outros objectivos. Como diria William Shakespeare na sua magnífica obra Hamlet, "sabemos o que somos, não sabemos o que poderemos ser". Tudo a seu tempo. JCS 2020-08-11 (versão completa da publicada na edição impressa de 2020-08-06)

 
Arouca

Quarta, 30 de Setembro de 2020

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A Frase...

"O município desinvestiu nos jovens"

Ricardo Martins, lider da Juventude Popular, em entrevista ao RV

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