SOCIEDADE
 
Histórias passadas, histórias reais
 
Virgínia Lima
Virgínia Lima nasceu e viveu sempre em Moldes
 
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As histórias de vida devem ser ouvidas, contadas, partilhadas. Mesmo quando o contador da história sente que não é especial e que a sua vida não é nem mais, nem menos que a dos demais, é-o, porque na memória está e fica uma vida guardada. Lobo Antunes diz que uma pessoa só morre quando morre a última pessoa que ouviu falar nela, sendo portanto, a memória, a maior herança que guardamos.
Virgínia Lima tem uma vida cheia para contar. Natural do lugar da Aldeia, Moldes, nasceu em 1939 e viveu sempre na freguesia. Virgínia, ou Gininha como é frequentemente tratada, casou aos 21 anos com Fernando Lima, pai dos seus cinco filhos.
O seu marido, Fernando Lima, era também natural de Moldes. Ainda muito jovem, acompanhou a sua mãe, depois desta enviuvar cedo, para uma vida no Porto.
A sua mãe foi cozinheira na casa de D. Antónia do Porto, dos Ferreirinhas da Régua e dos Cupertino de
Miranda. Otília de Almeida Lima, era uma afamada cozinheira da época.
Quando regressou a Arouca, Fernando foi trabalhar para o "Manuel do Alexandre", proprietário de um
talho na antiga Pensão Alexandre. Mais tarde fez sociedade com um cunhado e ficaram com uma venda no lugar de Outeiro-Meão.
Virgínia e Fernando construíram família e cimentaram o negócio. Naquela época, o marido ia buscar as compras ao Porto de camioneta, chegando a trazer bem mais de setenta quilos de mercadoria. Chegado à vila, era o táxi que o levava até onde a estrada permitia no centro da freguesia de Moldes. Lá, era
com recurso a carros de bois que se fazia o transporte da mercadoria até à venda.
Com a ausência do marido que ia ao Porto com frequência, Gininha sentiu a necessidade de tirar a carta
de condução, numa altura em que as mulheres poucos direitos tinham e fê-lo, numa época em que era necessário ter pelo menos o sexto ano. Gininha não tinha mas foi tirá-lo, ao fim da tarde, em Moldes. «Eu para ajudar os filhos, sujeitava-me a muita coisa», conta Gininha que quis ir aprender para poder ajudar os filhos que já estavam a estudar.
Além disso, Gininha serviu-se da carta de condução para ir buscar mercadoria aos armazéns da Lusitânia na vila e para ir à feira a Vale de Cambra. Conduziu cerca de 18 anos, depois os filhos tiraram a carta e deixou caducar a dela.
Vendia-se tudo, vendia-se «tudo quanto tivesse nome», desde agulhas e pregos a mercearia. Os mais
pobres compravam aos 100 gramas de açúcar. Quem não conseguisse pagar a dinheiro, por vezes pagava em vinho ou milho, ao final do ano.
Na taberna vendiam vinho, bagaço e às vezes arranjavam umas sandes. Gininha conta que às vezes os
homens queriam ficar até muito tarde a beber. O seu marido, cansado de um dia de trabalho, não gostava de os mandar embora e era ela quem descia pelo alçapão e fechava a taberna, quando alguns já estavam «meios pinguças».
Ao domingo era dia de fazer compras e acorriam à venda, pessoas dos vários pontos da freguesia, de Fuste a Bouceguedim. Vinham a pé, ainda o dia não tinha nascido, para fazer as compras antes da missa. Gininha lembra que muito cedo já se ouvia o nome do seu marido à porta da pequena loja, pois
as pessoas queriam fazer as compras antes de seguirem caminho até à Igreja Matriz da freguesia e lembra também, que eram os de Bouceguedim os primeiros a chegar à missa às oito da amanha,
já com as compras feitas.
Na década de 60 cozia muita boroa para os mais pobres que tinham perdido família no trabalho das minas. Essa boroa era feita de milho semeado pelos próprios, bem como o vinho, em que houve tempos em que tinham 18 pipas.
Além disso foram proprietários de uma pocilga que teve em tempos, 250 porcos para engorda e eram essencialmente levados para Gaia. No local onde funcionou essa pocilga, tem lugar agora uma casa da família, onde está um minimercado, sucessor da venda.
«As pessoas daqui não precisavam de ir à vila comprar nada». Quem o diz é Gininha, num desabafo orgulhoso, de quem, durante anos cimentou um negócio da aldeia, num processo penoso de compra de mercadorias para venda.
Quando as pessoas começaram a ter mais facilidade em deslocar-se até à vila, a venda começou a deixar de dar. Diz que a venda, não lhe traz grandes recordações porque foi uma vida de muito trabalho, embora diga que eram tempos muito alegres.
Esta senhora, agora com 80 anos de idade, guarda também na memória as memórias do seu pai, combatente em França, na Primeira Guerra Mundial, numa época difícil para quem ia e para quem ficava. Contudo, o seu pai foi um caso de sorte, tendo conseguido voltar em vida, a Arouca.
Além de uma vida completa no que diz respeito ao trabalho do campo e da venda, Gininha integrou ainda o grupo coral da freguesia, durante muitos anos fez parte do Orfeão de Arouca e agora é ainda elemento activo do Conjunto Etnográfico de Moldes, porque gosta de cantar e diz que faz bem.
São estas «histórias passadas, histórias reais», como diz Virgínia Lima, que devem perdurar na memória colectiva. Histórias de vida, de quem viveu dedicada à família, com uma enorme resiliência e determinação. André Vilar 2019-11-17
 
Arouca

Domingo, 08 de Dezembro de 2019

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