SOCIEDADE
 
«Não quero deixar de ser um servidor»
 
Tiago Santos
ENTREVISTA | Tiago Santos, da freguesia de Chave, está perto de cumprir o sonho de uma vida: ser padre
 
   Mais fotos
  Outras acções...
 Enviar a um amigo
 sugerir site
Aos 26 anos, Tiago Santos está perto de cumprir o sonho de uma vida: ser padre. RODA VIVA sentou-se à mesa, em Chave, sua terra natal, com o diácono ordenado a 8 de Dezembro último. Os temas foram os mais variados, desde o seu trajecto pessoal até aos seus pontos de vista sobre a comunidade que o
viu nascer, a tese de Mestrado que realizou sobre o Mosteiro de Arouca, a Igreja e o Mundo.

Em traços gerais, que balanço faz de todo este percurso, desde que entrou no seminário até agora em termos de formação, bem como de crescimento pessoal e espiritual?
Nós, quando falamos de seminário, temos muito aquela noção que advém daquilo que as pessoas nos
dizem, que é uma espécie de convento. Cria-se uma noção de clausura, de rigor. Que os professores eram os superiores e nós os alunos e por aí fora. Eu ia para lá a pensar que a casa seria assim. Eu quando fui para o Seminário Menor, em Ermesinde, vi que ao lado tinha uma igreja, e eu disse aos meus pais - ‘olhem, deve ser aqui' -, mas não era, era ao lado, num espaço amplo com diferentes pavilhões. As primeiras impressões foram logo boas e a relação entre os superiores e os seminaristas era muito próxima. Na maioria das decisões havia a preocupação de que dentro do seminário se criasse uma comunidade saudável. Havia muita preocupação com a formação humana, litúrgica e religiosa, bem como social, porque o nosso trabalho seria e será desenvolvido junto das pessoas. Tem de se garantir uma formação muito sólida.

Como foi a transição para o Seminário Maior?
Para mim foi fácil. Quando chegámos ao quarto ano no seminário menor, o chamado ano propedêutico, um ano de reflexão antes de entrarmos no seminário maior, nós éramos os mais velhos e tínhamos mais responsabilidades. No seminário maior já éramos os menores, por assim dizer, mas não me senti deslocado. Estava encantado porque, a nível de edifício, era um seminário que já se parecia mais com um convento e isso agradava-me muito. Na medida do possível, tentei viver assim.

Está a realizar estágio pastoral há dois anos em duas paróquias em Moreira da Maia. Como tem sido essa etapa em termos de progresso rumo à ordenação presbiteral?
Tem sido oportunidade de crescimento humano porque o que aprendemos no seminário é sempre
mais abstracto. Quando entrámos nas comunidades, deparamo-nos com o local onde a teoria embate com a prática. As relações sociais são diferentes de comunidade para comunidade, as tradições, entre outros aspectos. Isto alerta-nos para percebermos que, seja qual for o lugar onde estivermos a desenvolver a nossa missão, temos de estar nos locais, ouvir as pessoas, percebê-las e os seus lugares e fazer com que o evangelho entre aí.

E como têm sido estes quatro meses como diácono?
Dizem que estes sacramentos mudam o ser das pessoas e eu acho que sim porque estamos presentes na comunidade em nome de Deus e as pessoas reconhecem isso em nós. Por um lado é bom e gratificante, mas por outro é desafiante. Estamos a fazer um esforço pela coerência com aquilo que abraçámos para a nossa vida. É um tempo de aprendizagem, é um tempo de desafio, mas é muito gratificante.

Intensifica a preparação para o sacerdócio pela lógica do serviço?
Uma vez disse numa conversa com um amigo que quero ser diácono porque quero ser presbítero. É um meio de crescimento para chegarmos à ordenação sacerdotal. Podem haver casos em que se crie a imagem segundo a qual os padres se servem das pessoas. Mesmo sendo sacerdote, eu não quero deixar de ser um servidor, que é o que a palavra diácono significa.

Como olha para esta sua comunidade-natal? Que potencialidades e arestas ainda para limar?
Eu já disse a párocos que aqui paroquiaram e a pessoas muito ligadas à igreja que a paróquia de Chave é uma paróquia com muito potencial, as pessoas querem o melhor para a freguesia, têm boa vontade, mas essas boas vontades colidem umas com as outras por vezes, há dificuldades em uni-las, é tudo de uma forma um pouco desregrada. Contudo, reafirmo que é uma terra de boa vontade, graças a Deus.
Acho que as pessoas se unem minimamente.

Realizou tese de Mestrado sobre o Mosteiro de Arouca. Deu-lhe um gosto especial pegar nesse tema por se tratar de algo que lhe diz muito e a todos os arouquenses?
Para mim a escolha foi óbvia. Acho que todo o concelho de Arouca está muito marcado pelo mosteiro, pela devoção à Rainha Santa, mas também porque aglutinava e aglutina todas as pessoas do concelho. Acho que a preservação do mosteiro até hoje tem muito a ver com a ligação com as pessoas. A fundação da Real Irmandade tem muito a ver com isso: as pessoas uniram-se para preservar o património do mosteiro. Não continua o ritmo monacal da comunidade do mosteiro, mas o ritmo imprimido na comunidade exterior tem-se mantido. Agora é tudo muito de revivalismo. As recriações históricas fazem-se porque dá lucro, mas também porque buscam identidade e não há dúvida que é o mosteiro que dá identidade a Arouca. Um monumento assim íntegro é uma coisa muito rara em Portugal. Há mosteiros que foram maiores e agora não o são porque foram desmantelados. O mosteiro, depois de já não haver comunidade monacal, poucos anos depois, já não servia para nada. É a dura realidade. Mas ali no mosteiro foi preservada a sua integralidade e isso aí dá uma grande importância ao monumento, à escala nacional é muito importante. As pessoas referenciam-no de uma forma muito vinculada. Está todo, está completo e isso é raro.

Para si que é jovem e perto de ser ordenado sacerdote, ser padre hoje entre a juventude cria muitos estigmas?
Sim, cria, de facto. Na presença de um padre, as pessoas ficam com alguma precaução nos actos e nas palavras, mas depois, quando, nas relações humanas, se quebra o gelo, elas aproximam-se. Todo o cristão devia agir de uma forma diferente do comum. O padre deve dedicar toda a sua vida à causa do evangelho e isso pede que se seja diferente, mas isso não significa que se crie uma barreira intransponível. Os jovens querem ser diferentes. E eu, que falo também como jovem, considero que nós olhamos para o mundo e vemos que não está bem e queremos um mundo melhor, pelo que devemos ser imagem desse mundo melhor que procuramos.

Crê que nos dias de hoje se vive uma realidade de crise de vocações?
Eu acho que não vivemos uma crise de vocações, vivemos uma crise de cristãos. Como diz o Livro do Apocalipse: "Quando vier o Filho do Homem, encontrará fé sobre a terra?" O cristianismo moldou a nossa cultura de uma forma muito concreta, embora muitos queiram negar. Como o cristianismo está muito arraigado na cultura e hoje se perdeu muito a identidade, isso também acontece com os cristãos. Ao mesmo tempo, aqueles que se professam e vivem uma vida efectivamente cristã têm de ser mais decididos, formados, mais moldados ao evangelho. Uma coisa é uma família cristã que vive concretamente a fé cristã, enquanto há outras em que o cristianismo está apagado. Se calhar não são precisos tantos padres para os cristãos que temos. Eu acho que os padres são os necessários para os cristãos que existem.

Como se pode contrariar essa crise?
Antes tínhamos muita gente na igreja porque a fé vivia-se mesmo a sério. Agora o cristianismo é superficial e as pessoas não cultivam na sua vida o escutar da sua respectiva vocação. Às vezes só se ouve um sopro, já não se ouve voz. O padre tem de ser mesmo aquela pessoa que está no meio das pessoas e faz um esforço por escutá-las. Se não houver esse esforço, fica o evangelho por anunciar. Se antes se movia o mundo do púlpito, hoje tem de se ir ao encontro das pessoas.

Que olhar tem sobre o pontificado do Papa Francisco?
Eu acho que ele é de uma sabedoria muito afinada. A relação que ele tem com as pessoas é muito próxima e afectuosa. Ele fala com as mãos. Acho que isso é muito positivo para a Igreja. É um pontificado revigorante e um alerta para o mundo. A Igreja tem de ser a primeira a criar um mundo melhor. No que toca à Igreja Diocesana do Porto, fez há poucos dias um ano que entrou D. Manuel Linda à frente dos destinos da diocese.

Que opinião tem sobre o trabalho até agora realizado e para onde pode caminhar esta Igreja?
Ainda estamos muito em cima do acontecimento para poder fazer uma avaliação digna e minimamente correta. Acho que o trabalho que D. Manuel Linda tem em mãos é muito desafiante e exigente. Esse desafio será também revigorante para a igreja diocesana, junto das suas estruturas. O Espírito Santo estará com ele e enviar-nos-á pelo melhor caminho.

Estes casos de pedofilia na Igreja Católica... é uma chaga aberta?
As vítimas desses actos fazem parte do povo de Deus. A Igreja é o povo de Deus e a Igreja existe porque as pessoas existem. Quando um dos que são povo de Deus sofre, a Igreja sofre com ela e sofre também porque um irmão, que tinha mais responsabilidades no anúncio do evangelho, serviu-se da Igreja. Alguém aproveitou-se do evangelho para trazer o mal ao mundo e a Igreja está para o contrário. Neste seguimento, a acção da Igreja fica desacreditada aos olhos da sociedade. Eu penso que em Portugal e na generalidade da Igreja, os padres são bons e se entregam ao anúncio do evangelho com dedicação, mas com estes exemplos...a sua missão fica desacreditada. Nós concentramo-nos muito no erro e esquecemo-nos da misericórdia para com quem erra. Acho que é isso que se passa com a Igreja. Não estou a desculpar esses actos, essas pessoas têm de ser condenadas e assumir as responsabilidades dos seus actos.

Será necessário um maior cuidado e atenção por parte de quem supervisiona o trajecto e discernimento do seminarista para prevenir estes casos?
A formação intelectual e espiritual é muito importante, mas as pessoas têm de ser avaliadas na sua relação social. Quem está à frente tem de fazer um trabalho e acompanhamento muito personalizado. Vai muito da direcção espiritual, mas também da relação com os outros. A amizade alegra-se com aquilo que a pessoa é. Vou dar um exemplo: uma pessoa que, num grupo de amigos, quer ser sempre o dominador, isso já poderá ser um desvio, a não ser que seja alguma atitude de adolescente...Quando se chega a uma determinada maturidade, essa pessoa já não exerce violência sobre os outros. Se não atingir essa maturidade, creio que não estará preparada para ser sacerdote. Os padres, o prefeito, o director espiritual têm de fazer um acompanhamento muito pessoal. Isso, graças a Deus, aconteceu e acontece comigo. Ruben Tavares 2019-05-02

 
Arouca

Segunda, 22 de Julho de 2019

Actual
Temp: 32º
Vento: WSW a 3 km/h
Precip: 0 mm
Céu Limpo
Ter
T 26º
V 2 km/h
Qua
T 28º
V 2 km/h
PUB.
PUB.
 
INQUÉRITO
A providência cautelar interposta pela Lista A às eleições do FCA vai ter como desfecho o...
 
 
A Frase...

"Mansores está em contra-ciclo, no próximo ano lectivo vamos abrir duas salas de ensino pré-escolar com quarenta crianças"

Jorge Oliveira, presidente da JF Mansores, em declarações ao RV

PUB.
EDIÇÃO IMPRESSA

RSS Adicione ao Google Adicione ao NetVibes Adicione ao Yahoo!
PUB.
Desenvolvido por Hugo Valente | Powered By xSitev2p | Design By Coisas da Web | 34 visitantes online