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Amílcar Costa: a família e as moelas
 
O patriarca rodeado pela esposa e filhos
História de vida de um arouquense de "olho vivo"
 
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Diz serem «as melhores moelas do mundo», acreditando que nas redondezas e mais além não se fazem moelas assim. Viemos até ao Café Portela, mesmo à entrada da freguesia de Moldes.
Recebidos com simpatia e boa disposição, ouvimos as estórias que fazem a história do senhor Amílcar.
Amílcar Costa, 73 anos de idade, cresceu no lugar do Outeiro numa família de 15 irmãos. Em tempos difíceis, começou cedo a trabalhar nas terras e no monte no corte de madeira.
«Olho vivo» é a esposa quem o diz, astuto na gestão dos negócios e habilidoso no trato com os clientes dizemos nós. Parece não gostar de dar protagonismo a algumas agruras da vida mas foi uma delas que o fez rumar a África onde iniciaria a sua experiência na restauração e casaria com Adélia.
Aos 18 anos, o falecimento trágico de uma irmã fê-lo querer abandonar Moldes. Aproveitando a morada de uma tia em Luanda, pediu que esta lhe fizesse uma "carta de chamada" - procedimento habitual durante a Guerra Colonial. Embarcou em Lisboa a 11 de Novembro de 1966, num cargueiro cuja viagem foi paga pelo seu pai, que teve de pedir emprestado seis contos a um vizinho. Até Lisboa foi de táxi pago pelos patrões para quem trabalhava quando decidiu ir embora.
Em África assentou praça, passou 45 meses na Guerra Colonial, casou e aguçou o engenho nos negócios. Foi em Luanda que iniciou o seu percurso na área da restauração. Trabalhou num bar e depois na "Estalagem Leão", propriedade daquele que viria a ser um grande amigo seu. A cerca de 11 km da capital angolana, nesse espaço ganhava um conto e seiscentos.
Quando andava na tropa ia dormir na mesma à estalagem, excepto quando tinha de ficar no mato.
Em pouco tempo passou de empregado a gerente da estalagem e mais tarde a proprietário. Na gestão da
"Estalagem Leão" teve o importante apoio da esposa, Adélia.
Adélia foi "madrinha de guerra" de Amílcar. Embora fossem ambos de Arouca,Amílcar e Adélia não se conheciam pessoalmente. As madrinhas de guerra - uma figura que surge em contexto de guerra colonial - eram mulheres que através de cartas e fotografias reconfortavam os soldados que combatiam em África.
Diz Adélia que Amílcar escrevia longas e bonitas cartas. Aerogramas terão sido apenas dois.
Depois de mais de três anos de troca de correspondência, Adélia, contra a vontade da sua mãe, parte para África na companhia do seu irmão que tinha vindo a Portugal de férias.
Ambos se lembram da primeira vez que se viram aquando da chegada de Adélia a África. Adélia lembra que Amílcar estava de óculos escuros, camisola azul e que a cumprimentou com um aperto de mão. Amílcar fala da inegável formosura da futura esposa lembrando pormenores de um corpo na flor
da idade. Sublinhou a integridade da futura esposa que o seu discurso «lariante» não convenceu antes do casamento.
«A Mulher é que faz o Homem e o Homem a Mulher», quem o diz é Amílcar referindo-se, em jeito de louvor, ao acompanhamento da sua esposa ao longo dos anos.
Trabalharam ambos na "Estalagem Leão", ele no restaurante e ela na copa e nos quartos. Chegaram a
empregar cerca de 10 funcionários, entre portugueses e angolanos e trabalharam sempre mantendo as contas sãs.

«Nunca tive folga lá»

A primeira filha nasceu na África do Sul depois de alguns problemas de Adélia durante a gravidez. O médico que fez o parto suspeitava que a criança pudesse ter problemas, contudo nasceu saudável e, na memória de Amílcar está a expressão "very nice", proferida pelo médico quando viu a criança.
Após o 25 de Abril de 1974 a vida começou a piorar, tendo-se tornado insuportável permanecer na agora
ex-colónia. Deixaram para trás o negócio que tinham construído ao longo dos anos e regressaram a Portugal com pouco. A sua mulher trouxe dinheiro preso na cinta e tinha colocado também algum dinheiro no bolso de um casaco de Amílcar, que vinha na mala. Pouco para o trabalho que tinham tido e para a vida que ficava na terra de ninguém.
Quando regressou a Portugal, decidiu emigrar para França mas não gostou. Rezava para que não aparecesse trabalho para que não tivesse razões para ficar.
Juntou-se o facto de nunca «lá ter visto um bocadinho de sol» e não houve razões para ficar.
O regresso a Portugal foi uma volta de 180 graus na vida do casal. Da perda de rendimentos à perda do conforto e qualidade de vida exigiu astúcia e perseverança. Muitas foram as vezes que tiveram de fazer muita ginástica financeira para se desenvencilharem face aos encargos assumidos.
Em 1976, o trespasse de uma "loja" no lugar da Portela, muito próximo do actual estabelecimento, fê-lo retomar a vida de comerciante.
A venda de petiscos foi a solução encontrada «para se safarem» e fazer aumentar os rendimentos. Lembra que depois dos jogos de futebol «aquilo era uma enchente». Nesta altura já vendiam moelas que «era uma coisa sem jeito». Na realidade as moelas já as faziam em Angola.
Houve um amigo, nessa altura que o incentivou a vender «moelas e fêveras no pão» nas festas da aldeia e foi nessas festas, primeiro em Moldes e depois nas freguesias vizinhas que começou a mostrar aquilo que fazia.
O espaço onde ainda hoje funciona o Café Portela foi comprado por 500 contos. Durante muitos anos
teve, no espaço actual, de um lado a tasca com os comes e bebes e do outro, uma mercearia que era «abastecida» com produtos comprados em vários estabelecimentos para que tivesse, no seu, um pouco de tudo, num espírito de proximidade com os clientes.
Actualmente é apenas à restauração que o estabelecimento se dedica, sendo paragem obrigatória a quem visita Arouca. Aos domingos, o Café Portela enche-se de amigos e de clientes que passam a ser família.
O senhor Amílcar é a alma daquela casa, não passando despercebido naquela espaço que se enche com a sua presença. Os filhos e a esposa são parte integrante e de continuidade deste estabelecimento.
As moelas são a razão da peregrinação semanal de dezenas de pessoas ao Café Portela, a família Costa é a razão dessas pessoas voltarem. André Vilar 2019-12-29

 
Arouca

Quarta, 29 de Janeiro de 2020

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"A minha abstenção nas GOP e Orçamento deveu-se à falta de soluções para a minha freguesia"

Alberto Nunes, autarca de Albergaria e Cabreiros, em entrevista ao RV

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