SOCIEDADE
 
“Pano para mangas”
 
Graça Viana no seu ateliê de costura
Graça Viana, da freguesia de Santa Eulália, é modista desde os 12 anos
 
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Em Portugal, até 1974, ano em que teve fim o Estado Novo, o acesso às tendências da moda era muito limitado, muito por força da repressão em que os portugueses viviam, sendo notória a diferença quando comparado com os restantes países europeus e com a almejada América.
Neste contexto, eram as modistas e os alfaiates que faziam as roupas para a maioria das pessoas. As meninas eram desde muito novas incentivadas a aprender costura e a fazer disso profissão.
Com o passar dos anos, com o surgimento dos pronto-a-vestir e com o aumento do poder de compra sobretudo no período pós-Revolução dos Cravos, estas profissões foram tendo cada vez menos procura.
Fazer roupa por medida é muito mais do que uma simples profissão, é a conjugação da arte com o saber e o saber-fazer. Um saber-fazer que, embora não se tenha reinventado, num tempo em que a estilização da moda se sobrepõem, voltou a estar na moda, pelo facto das pessoas procurarem algo exclusivo para vestir, fugindo ao modelo estandardizado e da produção em série.
Natural de Santa Eulália e com 72 anos, Graça Viana é modista desde os 12 anos, tendo dedicado toda a sua vida ao corte e costura. A arte da moda esteve sempre ligada à sua família, uma vez que o seu pai tinha sido alfaiate e a sua irmã Conceição, conhecida carinhosamente por "Sãozinha Viana", era modista.
Graça aprendeu a arte com a sua irmã que também começou muito nova a aprender a costurar no Patronato, num tempo em que não havia escolaridade obrigatória e que "havia gosto em aprender a arte". Depois de se instruir, Conceição fez trabalhos porta a porta nas famílias de mais posses e mais tarde foi aprender "o corte" na Escola Normal do Corte "Luc", na Rua Firmeza, na cidade do Porto.
O curso licenciava-a a "dar o corte" às aprendizes e aos 18 anos, Sãozinha abriu o negócio por conta própria e começou a ensinar meninas a costurar, chegando a ser mestre de mais de dez, em simultâneo. As lições eram dadas pela Sãozinha que depois as enviava para a escola para que esta enviasse o diploma. Foi assim que Graça aprendeu também a arte, passando depois a partilhar o atelier com a sua irmã.
Algumas das meninas, agora mulheres, que aprenderam a costurar no atelier, ainda hoje fazem disso profissão, contudo, Graça considera que a costura é uma profissão que só é possível "por vocação" e que o facto de ser um trabalho "muito parado, aborrece".
Além disso, recorda que, em tempos, o trabalho era muito, principalmente no Natal e na Festa da Rainha Santa Mafalda em que toda a gente queria estrear uma roupa nova. Nas comunhões também eram muito procuradas para fazer os vestidos para as meninas e nos casamentos, as duas irmãs chegaram a vestir os noivos, os pais e os restantes convidados.
Cadbessa, Cadena e Élegance, são os nomes de algumas das revistas que as irmãs apresentavam aos clientes para que estes escolhessem o modelo que mais lhes agradasse. Embora existissem algumas revistas que traziam o modelo, o molde e uma amostra de tecido, estas modistas de Santa Eulália, usavam apenas os modelos que os clientes escolhiam e nunca os moldes preferindo fazer novos numa espécie de papel vegetal, nem os tecidos, que tinham de ser encomendados.
Durante o inverno o tecido trabalhado era maioritariamente a fazenda por ser um tecido mais quente, muitas vezes com mistura de lã na sua composição, e no Verão trabalhavam a algodão por ser um tecido mais fino e fresco.
No atelier, Graça guarda ainda uns pequenos livros com as medidas dos seus clientes, lembrando o facto de quando estes vinham mais do que uma vez fazer roupa por medida, bastava perguntar se tinham engordado ou emagrecido, evitando ter de tirar novas medidas.
Recorda também alguns clientes que gostavam de acompanhar sempre as últimas tendências e que visitavam sempre o atelier para estarem sempre na moda.
Cortar, unir, alinhavar, medir e rematar são algumas das fases do processo de confecção de roupa por medida e é isso que Graça faz no seu dia-a-dia, num volume muito inferior aquele que tinha há 20 anos, lembrando que em tempos as pessoas queriam uma roupa "de raiz" e que agora compram a roupa já feita e a levam à costureira para "ajustar ao corpo" Somos lembrados por aquilo que somos e por aquilo que fizemos. Contribuir para a preservação da arte, neste caso uma arte que serviu várias gerações, num
tempo em que as máquinas substituem o Homem a um ritmo alucinante é "remar contra a maré", contudo, torna-se imperativo lembrar aqueles que viveram para arte durante toda a vida, mantendo-a viva.
Só a memória é capaz de nos lembrarmos quem somos, o que fazemos aqui e para onde vamos. 2018-10-31 André Vilar
 
Arouca

Domingo, 18 de Novembro de 2018

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INQUÉRITO
Que balanço faz do trabalho da Provedoria da Santa Casa da Misericórdia no mandato que está prestes a finalizar?
 
 
A Frase...

"Não discrimino nenhuma das antigas freguesias"

Ângelo Miranda, presidente da União de Freguesias de Arouca-Burgo", eleito pela coligação PSD/CDS, em entrevista ao RV

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