ARMANDO ZOLA
 
Da política, à música e à religião
 
OPINIÃO | Nada, de material, ganharam com a política. A política, essa sim, ganhou com todos eles
 
O texto tem de ser entregue no jornal alguns dias antes da publicação. Escrever sobre quê? Sobre alguns traços da política que foi e da que é?
LEMBREI-ME dos alertas sucessivos de um dos meus ascendentes e do então velho pároco da minha freguesia natal: "cuidado com a política, ela desgraça a vida das pessoas!" A política era "desarranjo de vida". Era também imperativo de consciência. Pela memória foram-se-me desfiando tantos que, com danos próprios, irreversíveis muitas vezes, recusaram o silêncio, o conformismo, ousaram divergir. Gente normal, sempre de vida discreta. Mas também vultos maiores, de quadrantes diversos: Soares, Cunhal, Sá Carneiro, Freitas do Amaral, Amaro da Costa, José Tengarrinha, Teotónio Pereira e tantos, tantos outros. Nascidos em berço de ouro, tinham à mão uma vida e um futuro de sonho. Todos, a seu tempo, conhecedores dos perigos e da total incerteza sobre o futuro da sua luta, ousaram lutar. Tempos diversos, circunstâncias diferentes, perigos distintos, sacrifícios incomensuravelmente desiguais, mas todos, à sua maneira, abdicaram da estabilidade de suas vidas e da comodidade dos seus muitos privilégios, para afirmar, contra marés adversas, seus ideais. Uns suportaram a perda de emprego, perseguições, a prisão, a tortura, o exílio, outros, ainda que menos duramente, o enxovalho, a difamação, a injúria. Não tergiversaram. Em todos, por certo, mora, ou morou até ao último de
seus dias, a consciência do dever cumprido. Nada, de material, ganharam com a política. A política, essa sim, ganhou com todos eles.
LEMBREI-ME disso, do "desarranjo de vida" que a política era, e da política como "arranjo de vida" que hoje, tantas vezes, é. A nível central, como a nível local. Inexistem, as mais das vezes, as ideias e as convicções. Nela, na política, também fruto dos tempos, procura-se, frequentemente, apenas uma ocupação, ou uma melhor, mais cómoda ou mais bem remunerada ocupação. Muitas vezes também, uma ocupação que abra o caminho a uma melhor reforma no futuro.
De uma intervenção assim, como mero "arranjo de vida", sem ideias, sem alma, sem convicções, se ressentem as medidas de política, na dimensão, na qualidade, na coerência, na eficácia.
LEMBRAVA-ME, com algum desalento, disso, quando, pela televisão, me chega a notícia da vitória da música suave, doce, bela, sentida, de Salvador Sobral e de sua irmã, Luísa Sobral, por ele interpretada de maneira singular, com cativante naturalidade e simplicidade.
As rimas e os ritmos fáceis, amiúde brejeiros, que inundam festas e romarias e atulham os canais de televisão, não estavam ali. Esteve, no dizer do seu nunca deslumbrado intérprete, música de "conteúdo emocional, lírico, melódico". Diria ainda o vitorioso cantor que tem sido feita "música descartável" e que "é preciso fazer música com conteúdo, com significado. A música é sentimento, é preciso trazê-la de volta. A música não é fogo de
artifício".
Obrigado, Salvador! Um músico que, no momento da vitória, a secundarizou, para sobrevalorizar a música que é melodia, emoção, sentimento, significado, conteúdo!
LEMBRAVA-ME disso, quando, em simultâneo com a notícia da vitória de Salvador, me chegava a súmula da reportagem da presença do Papa Francisco em Fátima. Um Papa que, no olhar, nos gestos, nas palavras, carregadas de emoção, sentimento, significado, se esforça e sacrifica, abjurando privilégios, pela solidariedade, pela justiça, pela paz. Um Papa que inspira os agnósticos, é exemplo para os crentes, é esperança para todos.
LEMBRAVA-ME disso, de certa política, com algum desencanto, quando, porta adentro, pelo ecrã, surgiram Salvador e Francisco. Nem tudo, afinal, é desesperança!
Que, salvaguardadas as distâncias, ambos, Salvador e Francisco, possam superar suas muitas debilidades físicas e possam continuar a ser, a seu modo, inspiração e esperança para todos!

(texto publicado na edição impressa do RODA VIVA jornal de 2017.05.18)


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Quarta, 28 de Junho de 2017

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